(Rezar e Chorar - publicado no Globo na semana passada)
"Nos últimos anos, a vivência da perda irremediável conduziu-me a uma descoberta fora do comum. Levou-me ao entendimento que chorar é uma forma de rezar. Choro, logo rezo; diria elegantemente um cartesiano. Rezo, logo choro; diria um estruturalista com gosto pelas esclarecedoras reversões que ajudam a descobrir dimensões ocultas; e a relativizar verdades e crenças estabelecidas.(...) Em ambos está contida a experiência fundamental quando nos confrontamos com as situações fora de controle: com as negativas que nos roubam o pai, o filho, o amante, o irmão e o amigo; ou com as moléstias que corroem as pessoas amadas. No soluço que nos sacode o peito e nos faz gemer de dor pela nossa condição de miséria e finitude, há o reconhecimento de que somos incompletos, perdidos, frágeis e fáceis de atingir porque tudo o que temos é relativo e passageiro. "
segunda-feira, 7 de abril de 2008
domingo, 6 de abril de 2008
Mia Couto
A Fábula do Macaco e do Peixe
Um macaco passeava-se à beira de um rio, quando viu um peixe dentro de água. Como não conhecia aquele animal, pensou que estava a afogar-se. Conseguiu apanhá-lo e ficou muito contente quando o viu aos pulos, preso nos seus dedos, achando que aqueles saltos eram sinais de uma grande alegria por ter sido salvo. Pouco depois, quando o peixe parou de se mexer e o macaco percebeu que estava morto, comentou - que pena eu não ter chegado mais cedo!
'Dingão' - para o Zé e o Uchoa
Pegou em casa a tequila ouro que o amante miserável trouxe da viagem e levou para a mesa do bar, onde amigos a esperavam. Era dia de porre anunciado. Na mesa, cinco que entornavam cervejas e cachaça olharam para ela com admiração quando a garrafa foi posta com proposital barulho brindando à revelia os copos. Vambora beber. Quietinho e só sorrisos, um habitué das farras e calçadas da Farani olhou para o grupo. Interessante, pensou ela na terceira virada da tequila, que não resistiu nem dez minutos aos sugadores de álcool. Vaquinha rápida, reclamações de preço, corrida ao posto no início da Pinheiro Machado e tudo resolvido. Outra garrafa na mesa. Hmmmmm... Ele tá afim. Não tira os olhos, ela reparava. O quase fim da segunda tequila a fez lembrar que havia uma festa para ir. Traçou uma reta na sua cabeça já entalada nos efeitos "sombreros" da bebida, rumou ao piteuzinho e cobriu os lábios dele com o gosto do México. Nenhuma palavra foi dita. Atônito, ele sorvia as gotas da boca da louca. Tenho uma festa para ir no Humaitá. Vai comigo, gostoso. Bebidinha de graça. Ele, o amigo dele e a namorada do amigo toparam ao mesmo tempo. Chegaram à festa quando o torpor da tequila dava adeus a ela, deixando em seu lugar um mal-estar horrível, uma sensação de cabeça presa num imenso pião e pernas para o ar. Ai, vou vomitar. Não, aqui, não, maior mico. Viu que seus convidados estavam bem e saiu à francesa. Disse o endereço de casa entredentes, largada no banco de trás do táxi, antes de o manto da amnésia cobri-la até a ligação de um amigo no dia seguinte: Pô, maneira sua ação social e emocional com o cara. Nenhum problema de ele e os amigos comerem lá e dormirem na cama do dono da casa. Mas poderiam ser mendigos menos fedorentos.
sábado, 5 de abril de 2008
Dois Vítor e um Hoffmann
Vítor Araújo relê Paranoid Android do Radiohead, de quem é fã - "ouço tanto quanto ouço Chico Buarque" -, dividindo a música em quatro interpretações: sua, de Chopin, de Bach e do próprio Radiohead. A música para ele está na vida, ou a vida está na música. O silêncio é música. Pernambucano. Torcedor do Náutico doente. Boquirroto. Fofo. Articulado. Enaltece Villa-Lobos, fazendo-nos chorar com a Valsa da Dor. "Percebam como a dor atravessa mais de 40 anos e é sentida até hoje como dor", diz com apenas 18 anos de vida, dos quais 9 pratica piano.
O outro Vítor poderia ser pai deste, com o qual sairia para "pegar" nos Bailinhos da vida. Briga contra o tempo com seus generosos olhos verdes. Inaciano, quase padreco, já estudou teologia. Desistiu. Esqueceu a fé pelas esquinas. Arremeteu-se para a filosofia - adora Nietzsche, quer exercitar o cérebro e passar as horas. Não diz de jeito nenhum a idade e ensaia um biquinho de criança quando questionado. Sabe que o "inverno no Leblon é quase glacial", por isso gosta de abraços quentes sobre a Academia da Cachaça.
Hoffmann foi uma surpresa. Lembro-me das lágrimas derramadas por me sentir incompetente na sua presença. Editor que cobrava mais do que sabia. E às vezes dava a impressão de não saber o que exatamente queria. Detonou em mim uma duodenite aos 23 anos. Mas o inferno virou céu. Agradeço-o por batalhar por mim para eu estudar na Espanha sem perder meu emprego. Veio ao meu encontro no bar, após 12 anos sem encontros. "Ana Silvia! Que bom vê-la bem. Se lembra de mim?". Minha memória apagada pegou no tranco. Bom vê-lo também, Hoffmann, meu professor de tolerância.
Semana marcada por três personagens masculinos distintos. Os homens são muito interessantes.
sexta-feira, 28 de março de 2008
VOLTA TUDO AO QUE ERA ANTES
terça-feira, 25 de março de 2008
segunda-feira, 24 de março de 2008
Finda a quaresma/Fim da quaresma
Canção
(Cecília Meireles)
Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar
Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.
O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...
Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.
Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.
(Cecília Meireles)
Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar
Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.
O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...
Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.
Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.
domingo, 16 de março de 2008
De Patrícia Evans
PROMESSA
Vou te amar,
não como Ulisses amou Penélope,
Romeu, Julieta.
Jamais um amor de Otelo
ou Orfeu,
porém, nada menos incisivo;
vou te amar como Narciso.
Vou te amar,
não como Ulisses amou Penélope,
Romeu, Julieta.
Jamais um amor de Otelo
ou Orfeu,
porém, nada menos incisivo;
vou te amar como Narciso.
quinta-feira, 13 de março de 2008
A Arte de Esquecer (extraído do Boletim Contato do IEA/USP)
"Somos aquilo se que nos lembramos", disse o pensador italiano Norberto Bobbio. O neurocientista Iván Izquierdo concorda, mas acrescenta: "Somos também aquilo que decidimos esquecer".
Segundo Izquierdo, que atualmente trabalha no Centro de Memória do Instituto de Pesquisas Biomédicas da PUC-RS, o ser humano esquece para poder pensar, não ficar louco, conviver e sobreviver. Caso contrário, todos seriam como Funes, personagem do conto de Jorge Luis Borges "Funes, o Memorioso", várias vezes citado por Izquierdo. Funes era capaz de lembrar absolutamente tudo que vivenciara. E como sua mente se saturava com lembranças minuciosas sobre tudo, era incapaz de fazer generalizações e, portanto, de pensar.
Assim como é fundamental exercitar a memória (sobretudo com a leitura, recomenda Izquierdo), para que as sinapses (conexões entre os neurônios) se consolidem e possibilitem a evocação de memórias, é preciso praticar a arte de esquecer para uma vida com maior bem-estar: "A arte de esquecer, como todas as artes, depende de sutilezas, contém muito de involuntário, e pode ser utilizada para o bem ou para o mal do próprio indivíduo".
A memória de trabalho é aquela utilizada para entender a realidade que rodeia o indivíduo, com o processamento imediato das informações recebidas, para a formação e evocação da memória de curta duração, que dura algumas horas, e da memória de longa duração, que dura dias, anos ou décadas.
A arte de esquecer deve ser aplicada para o bom funcionamento da memória de trabalho, na qual esquecer é parte da função, para que haja "o bloqueio sensato do excesso de informações que às vezes nos inunda".
Outro recurso é a falsificação de memórias, que o cérebro às vezes produz como um mecanismo de defesa, para nos sentirmos melhor com uma lembrança parcial ou distorcida de algúem ou de algo, no lugar dos aspectos desagradáveis ligados a esse alguém ou algo.
Há também a repressão, o esforço consciente ou inconsciente feito para não recordar continuamente ou fora do momento oportuno episódios dolorosos, humilhantes ou aterrorizantes.
A extinção e duas formas próximas a ela, a habituação e a diferenciação, muitas vezes não levam ao total esquecimento, mas refletem a arte de cancelar respostas já inúteis. O neurocientista explica que essa atitude pode ter enorme valor terapêutico no tratamento de fobias, pânico, angústia generalizada, estresse pós-traumático e outras doenças psiquiátricas.
O quinto componente da arte mencionado por Izquierdo é a chamada dependência de estado, em que o cérebro se reserva o direito de responder só quando estiver novamente sob a influência de determinado estado neuro-humoral e hormonal: "Serve, entre outras coisas, para trazer à tona formas de resposta ao medo só na presença de situações que as exijam".
Segundo Izquierdo, que atualmente trabalha no Centro de Memória do Instituto de Pesquisas Biomédicas da PUC-RS, o ser humano esquece para poder pensar, não ficar louco, conviver e sobreviver. Caso contrário, todos seriam como Funes, personagem do conto de Jorge Luis Borges "Funes, o Memorioso", várias vezes citado por Izquierdo. Funes era capaz de lembrar absolutamente tudo que vivenciara. E como sua mente se saturava com lembranças minuciosas sobre tudo, era incapaz de fazer generalizações e, portanto, de pensar.
Assim como é fundamental exercitar a memória (sobretudo com a leitura, recomenda Izquierdo), para que as sinapses (conexões entre os neurônios) se consolidem e possibilitem a evocação de memórias, é preciso praticar a arte de esquecer para uma vida com maior bem-estar: "A arte de esquecer, como todas as artes, depende de sutilezas, contém muito de involuntário, e pode ser utilizada para o bem ou para o mal do próprio indivíduo".
A memória de trabalho é aquela utilizada para entender a realidade que rodeia o indivíduo, com o processamento imediato das informações recebidas, para a formação e evocação da memória de curta duração, que dura algumas horas, e da memória de longa duração, que dura dias, anos ou décadas.
A arte de esquecer deve ser aplicada para o bom funcionamento da memória de trabalho, na qual esquecer é parte da função, para que haja "o bloqueio sensato do excesso de informações que às vezes nos inunda".
Outro recurso é a falsificação de memórias, que o cérebro às vezes produz como um mecanismo de defesa, para nos sentirmos melhor com uma lembrança parcial ou distorcida de algúem ou de algo, no lugar dos aspectos desagradáveis ligados a esse alguém ou algo.
Há também a repressão, o esforço consciente ou inconsciente feito para não recordar continuamente ou fora do momento oportuno episódios dolorosos, humilhantes ou aterrorizantes.
A extinção e duas formas próximas a ela, a habituação e a diferenciação, muitas vezes não levam ao total esquecimento, mas refletem a arte de cancelar respostas já inúteis. O neurocientista explica que essa atitude pode ter enorme valor terapêutico no tratamento de fobias, pânico, angústia generalizada, estresse pós-traumático e outras doenças psiquiátricas.
O quinto componente da arte mencionado por Izquierdo é a chamada dependência de estado, em que o cérebro se reserva o direito de responder só quando estiver novamente sob a influência de determinado estado neuro-humoral e hormonal: "Serve, entre outras coisas, para trazer à tona formas de resposta ao medo só na presença de situações que as exijam".
Alguma coisa está fora da ordem
Li do Calligaris: "A mentira, num mundo opressivo, é uma forma aceitável de resistência."
quarta-feira, 12 de março de 2008
Arrumação de gavetas
segunda-feira, 10 de março de 2008
De Anna Azevedo
SONHO, O TEMPO NOS LEVA.
DEIXEMO-NOS LEVAR,
É SUAVE...
FEITOS SOMOS DA MESMA MATÉRIA,
SIM, CORREMOS EM DIREÇÕES OPOSTAS ,
PORÉM,
NÃO, NÃO, VELHO AMOR, NÃO CHORE.
O BEIJO, DEIXE QUE DURE,
ESTA GOTA EM SEU OLHAR ,
QUE A BRISA SEQUE,
DEIXE, É SUAVE, ASSIM...
CESSA, A DOR, EM VENTO BREVE ,
VERÁS, O ENCONTRO, SEM MAIS A PRESSA,
VIRÁ, POIS ELA GIRA, GIRA, GIRA,
A TERRA E ENFIM, VELHO AMOR,
NA MESMA DIREÇÃO,
OLHE, PEGADAS NA TERRA ÚMIDA, AS NOSSAS.
NÃO, NÃO, NÃO SOFRA.
É BRANDO, O TEMPO, O VENTO QUE VAI... E VOLTA
ETERNA-MENTE.
JÁ QUIS REINVENTAR, DOBRAR A ESQUINA,
MAS ELA GIRA, GIRA, GIRA.
POR ENQUANTO: GUARDE O BEIJO QUE LHE DEI.
DEIXEMO-NOS LEVAR,
É SUAVE...
FEITOS SOMOS DA MESMA MATÉRIA,
SIM, CORREMOS EM DIREÇÕES OPOSTAS ,
PORÉM,
NÃO, NÃO, VELHO AMOR, NÃO CHORE.
O BEIJO, DEIXE QUE DURE,
ESTA GOTA EM SEU OLHAR ,
QUE A BRISA SEQUE,
DEIXE, É SUAVE, ASSIM...
CESSA, A DOR, EM VENTO BREVE ,
VERÁS, O ENCONTRO, SEM MAIS A PRESSA,
VIRÁ, POIS ELA GIRA, GIRA, GIRA,
A TERRA E ENFIM, VELHO AMOR,
NA MESMA DIREÇÃO,
OLHE, PEGADAS NA TERRA ÚMIDA, AS NOSSAS.
NÃO, NÃO, NÃO SOFRA.
É BRANDO, O TEMPO, O VENTO QUE VAI... E VOLTA
ETERNA-MENTE.
JÁ QUIS REINVENTAR, DOBRAR A ESQUINA,
MAS ELA GIRA, GIRA, GIRA.
POR ENQUANTO: GUARDE O BEIJO QUE LHE DEI.
domingo, 9 de março de 2008
domingo, 2 de março de 2008
O Bom-dia do Haroldo
Enquanto meu coração suspirava por amores platônicos na infância/adolescência, eu me remediava nos dramas alheios. Todo os dias, às nove da manhã, ouvia o "Bom-dia", do Haroldo de Andrade. Era uma adicta. Depois da música de abertura - o Concerto para Piano nº1, de Tchaikovsky, forte para criar um clima, o radialista contava a história de um/uma ouvinte desesperado(a) que havia mandado uma carta ao programa. Era mais ou menos assim o começo: Há pessoas que acreditam que o dinheiro compra tudo: felicidade, desculpas, consciência. Que não conseguem enxergar a delicadeza da amizade, a dor do irmão, a importância da solidariedade. É disso que nos fala a carta do meu ouvinte de Madureira, fulano de tal...
Então, vinham as histórias: eram mães que abandonavam os filhos, mulheres traídas, velhinhos largados à própria sorte, gente despejada, pessoas doentes, as situações mais melodramáticas possíveis. No fim, Haroldo consolava de algum jeito, tipo assim: "Para você, sicrano, na esperança de que a tranqüilidade volte ao seu coração e que você possa ser perdoado pelo beltrano, o meu abraço, a minha amizade e este bom-dia...". E subia o som da música de Tchaikovsky.
Eu vibrava, adorava mais do que novela. O "Bom-dia" me fazia chorar, olhar para cada rosto na rua como um possível ouvinte, esquecer as minhas bobagens, inventar. O quadro, que abria Programa Haroldo de Andrade, falava de gente real, desprezada, angustiada, agonizante. O locutor era passional, não apenas relatava, mas afagava a vítima e apedrejava o vilão da carta em pleno ar. Era o máximo.
Depois que fui estudar de manhã, no científico, não ouvi mais, nem sei se o quadro continuou. No decorrer da vida, colecionei alguns poucos, mas agora sim verdadeiros, dramas para contar ao Haroldo e receber aquele emocionado bom-dia. Mas Haroldo se foi no fim de semana. Fica mais uma saudade de chorar na minha memória infantil.
Então, vinham as histórias: eram mães que abandonavam os filhos, mulheres traídas, velhinhos largados à própria sorte, gente despejada, pessoas doentes, as situações mais melodramáticas possíveis. No fim, Haroldo consolava de algum jeito, tipo assim: "Para você, sicrano, na esperança de que a tranqüilidade volte ao seu coração e que você possa ser perdoado pelo beltrano, o meu abraço, a minha amizade e este bom-dia...". E subia o som da música de Tchaikovsky.
Eu vibrava, adorava mais do que novela. O "Bom-dia" me fazia chorar, olhar para cada rosto na rua como um possível ouvinte, esquecer as minhas bobagens, inventar. O quadro, que abria Programa Haroldo de Andrade, falava de gente real, desprezada, angustiada, agonizante. O locutor era passional, não apenas relatava, mas afagava a vítima e apedrejava o vilão da carta em pleno ar. Era o máximo.
Depois que fui estudar de manhã, no científico, não ouvi mais, nem sei se o quadro continuou. No decorrer da vida, colecionei alguns poucos, mas agora sim verdadeiros, dramas para contar ao Haroldo e receber aquele emocionado bom-dia. Mas Haroldo se foi no fim de semana. Fica mais uma saudade de chorar na minha memória infantil.
sábado, 1 de março de 2008
Lições de Vivência 1
Meus filhos nunca chuparam chupeta. Não dei pelo simples motivo de que acho horrível viciar crianças naquele plástico e depois, num belo dia, dizer a elas que é hora de jogar o segundo objeto do desejo que conheceram - o primeiro é o peito - no lixo, ou dar para o papai noel em troca de brinquedos (alguns pais criminalmente afanam e escondem a chupeta e botam a culpa em qualquer coisa, deixando lá os pequeninos a se esgoelarem). Há bebês, como os meus foram, que não querem substituir o bico quentinho, macio e de cheiro conhecido do seio por um látex qualquer. Ah, não, de jeito nenhum. Então os genitores desses rebeldezinhos enganam, falseando a borracha com mel, açúcar, funchicória. Se mesmo assim, adoçada, os pequenos senhores de si desdenharem a artimanha e cuspirem a chupeta, papai e mamãe ensinam aos filhinhos amados a primeira lição sobre o mundo cruel: manda quem tem mãos fortes e poder. Com a delicadeza dos dominadores contrariados, atocham o objeto na boca da criança e ficam lá segurando para evitar que a língua inconformada do neném o atire ao chão. O bebê, cansado, entende a mensagem. Aceita. Com o tempo, assim como a síndrome de Estocolmo, acaba pegando amizade, amor, naquela coisa. Alguns dão até nome à chupetinha, mais tarde, com um aninho e pouco. Então, tchau. Hora de acabar a brincadeira e aprender a segunda, ou terceira ou quarta lição do mundo cruel, porém muito importante e sofrida: afetos são descartáveis. Crescemos carregando a dor da perda. E nunca mais nos livramos dela.
sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008
Eubiose e as blagues
Se me fossem dados desejos, além de voar e teletransportar, eu queria conhecer o tal do meu superego, essa criatura assustadora onipresente, onisciente, oniapqp. Pintam horrores dos superegos alheios. Dizem que, se deixarem o bicho solto, o caminho é a morte, o prazer total. A coisa é poderosa. Mas a história é outra.
Do mesmo jeito que um dia acordei e vi o Gerson King Combo na minha frente - ele saiu da noite para me dar bom dia -, hoje fui parar em sonho dentro do blogue de blagues de um conhecido. Estava lá na minha cabeça como título de um post: "Eubiose". Sim, sabia que existia uma sociedade disso aí, mas nem sabia o que significava e muito menos entendi por que a criatura superego associou a palavra ao blogue e ao conhecido. Resolvi investigar. Está lá no Google:
Frase: "SPES MESSIS IN SEMINE (A ESPERANÇA DA COLHEITA RESIDE NA SEMENTE)". Hmmm... Não entendi.
Fui além na wikipédia: "É uma palavra criada pelo teósofo brasileiro Henrique José de Souza, a partir das raízes gregas Eu (eús, eú, bom, bem), bio (bios, vida) e -ose (osis, processo, ação, condição). Eubiose, portanto, significa: ação, processo ou condição de bem viver. "
Ah, tá. Mas que diabos eubiose tem a ver com as blagues? Foi uma mensagem subliminar? Valei-me, São Freud.
Do mesmo jeito que um dia acordei e vi o Gerson King Combo na minha frente - ele saiu da noite para me dar bom dia -, hoje fui parar em sonho dentro do blogue de blagues de um conhecido. Estava lá na minha cabeça como título de um post: "Eubiose". Sim, sabia que existia uma sociedade disso aí, mas nem sabia o que significava e muito menos entendi por que a criatura superego associou a palavra ao blogue e ao conhecido. Resolvi investigar. Está lá no Google:
Frase: "SPES MESSIS IN SEMINE (A ESPERANÇA DA COLHEITA RESIDE NA SEMENTE)". Hmmm... Não entendi.
Fui além na wikipédia: "É uma palavra criada pelo teósofo brasileiro Henrique José de Souza, a partir das raízes gregas Eu (eús, eú, bom, bem), bio (bios, vida) e -ose (osis, processo, ação, condição). Eubiose, portanto, significa: ação, processo ou condição de bem viver. "
Ah, tá. Mas que diabos eubiose tem a ver com as blagues? Foi uma mensagem subliminar? Valei-me, São Freud.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008
Ajuda teu irmão que Deus vai te ajudar

Ele parecia o modelo de Portinari para pintar O Lavrador de Café. Os pés no chinelo velhíssimo eram enormes, desproporcionais. Quando olhei, vi que rezava com fervor diante de um quadro de Santo Antônio. Ele percebeu. Virou-se para mim e me mostrou o braço machucado. "Toma, moça", disse, entregando-me um santinho de São Judas Tadeu. Logo o meu "seu Judas", poderoso com os rubro-negros e com os que querem soluções para casos impossíveis. "Reza por mim, que tô fazendo hemodiálise. Ajuda teu irmão que Deus vai te ajudar"", disse triste. Naquele momento, naquele convento, a frase ecoou. E rebateu no coração. Haviam acabado de me negar a mão, eu estava com febre, nauseada, insone, uma zumbi sem mato. Ajuda teu irmão. Abracei aquele irmão em pensamento, solidária na miséria, igual no abandono, enquanto o via se afastar, seguido por uma mosca, para se postar diante da cruz.
terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
Um dia Antônio Maria total
"Às vezes, me sinto muito só. Sem ontem e sem amanhã. Não adianta que haja pessoas em volta de mim. Mesmo as mais queridas. Só se está só ou acompanhado, dentro de si mesmo. Estou muito só hoje. Duas ou três lembranças que me fizeram companhia, desde segunda-feira, eu já gastei. Não creio que, amanhã, aconteça alguma coisa de melhor."
Oração - Antônio Maria (1954)
"Rosinha Desossée, me tire desse quarto de hotel e de todas as coisas que entram pela janela; me leve para longe das palmeiras, mais longe e perto das coisas mais macias; me faça esquecer (depressa) os homens ruins — isto é: os que gostam de cebola crua; me ensine, Rosinha Desossée, tudo o que eu não aprendi: a cortar com a mão direita, a usar anel, a tocar piano, a desenhar uma árvore e valsar; e me lembre do que eu esqueci — raiz quadrada, (as mais ordinárias), frações, latim, geofísica e "Navio Negreiro", de Castro Alves; depois, me dê, pelo bem dos seus filhinhos, aquilo que eu não tenho há quase um ano, carinho — de um jeito que eu não sei dizer como é, mas que há, por aí ou, pelo menos, já houve; destelhe a casa, deixe a noite entrar e, juntos, vamos nos resfriar; espirre de lá, que eu espirro de cá... agora, cada um com a sua bombinha, inalação, inalação; lado a lado, sentemos, os dois de perfil para o ventilador; minhas mãos e as suas não são de ninguém, entendido?; se interesse por mim e pergunte o que eu sei, que eu quero exclamar, no mais puro francês: "oh!"..."comment allez vous"? (...) de um jeito ou de outro, me tire daqui, pra Pérsia, Sibéria, pro Clube da Chave, pra Marte, Inglaterra, sem couvert, sem couvert; está vendo o retrato dos meus 20 anos? de lá para cá, cansaço, pé chato, gordura, calvície fizeram de mim essa coisa ansiosa, insegura e com sono, que pede a você, no auge do manso: você, Desossée, não saia esta noite e fique, ao meu lado, esperando que o sono me tome e me mate, me salve e me leve, por amor ao teu andar, assim seja..."
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
Pensata
Fui criada dando valor às palavras. Primeiro queria empregá-las certo. Depois, escrevê-las corretamente. Aprendi que uma pode ter vários significados, então comecei a brincar com elas, divertir-me. Meu pai ensinou-me a profundidade que podem ter, trazendo alegria, machucando, fazendo o interlocutor de bobo. Por isso, orientou-me a não mentir. Ouvi atentamente as palavras dele, como ouço as de todos, até porque são meu ganha-pão. E analisando meu amor às letras que se unem para formar nomes e significados de qualquer coisa ou sentimento penso em como essa vida seria melhor se houvesse um apego ao que se diz ou escreve sem estar com cabeça quente. Imagine o paraíso: discursos de campanhas cumpridos e um mundo só de seres preocupados em levar a sério expressões como "não vou ferir você nem magoar", "acredite em mim", "conte comigo", "pago assim que receber" e tantas, tantas mais.
Quem joga palavras ao léu e diz que é coisa de momento assina embaixo de (des)enganos. É melhor pensar duas vezes antes de reclamar quando se sentir lesado.
Quem joga palavras ao léu e diz que é coisa de momento assina embaixo de (des)enganos. É melhor pensar duas vezes antes de reclamar quando se sentir lesado.
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008
Foi um rio que passou em minha vida...
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
Me beija que não sou cineasta, mas poeta
Chegou no bloco e na bucha e me recitou um poema ao pé do ouvido no Baixo Gávea. "Hmmmm... é assim, assim", eu disse. "Mas fiz para o bloco, sou poeta. Você não gostou?", perguntou-me Chacal. "Sei que é poeta. Já li coisas melhores suas", fui sincera. "Então deixa eu dizer outro: 'Quero que você me beije e a quaresma me deixe.'" "Não. Não gostei". Levei um tapa de brincadeira na mão com a força descontrolada dos ébrios, antes do afago de desculpas. Tudo certo, Chacal, colou com outras e outros que respiram. Neste momento, faço meu seu verso: quero que a quaresma me deixe.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008
Do Cadu
VÃOS ENTRE OS DEDOS
Entre os dedos das mãos
Vão-se os anéis
Ficam os medos
Gestos presos
Vãos entre os dedos
No entrelace das mãos
Os gestos são grãos
Escorrendo
nas frestas dos dedos
Entre a boca e a orelha
o vão é da língua
O hálito quente
transmite o segredo
A mordida o dente
A saliva a centelha
No ar a resposta
No segredo a proposta
Teus vãos,
Como é bom preenchê-los!
Percorrer teus relevos
Morder os teus lábios
Cheirar teus cabelos
Cafunés sem anéis
P'ra que quero anéis
Vamos entrelaçar mãos
Pensar que os medos
Vão-se entre os dedos
Entre os dedos das mãos
Vão-se os anéis
Ficam os medos
Gestos presos
Vãos entre os dedos
No entrelace das mãos
Os gestos são grãos
Escorrendo
nas frestas dos dedos
Entre a boca e a orelha
o vão é da língua
O hálito quente
transmite o segredo
A mordida o dente
A saliva a centelha
No ar a resposta
No segredo a proposta
Teus vãos,
Como é bom preenchê-los!
Percorrer teus relevos
Morder os teus lábios
Cheirar teus cabelos
Cafunés sem anéis
P'ra que quero anéis
Vamos entrelaçar mãos
Pensar que os medos
Vão-se entre os dedos
terça-feira, 5 de fevereiro de 2008
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008
O-cultismo
Glamour, por mais que pareça francês, tem origem anglo-saxônica. Só para quem quiser aprender:
Glamour: 1720, "magic, enchantment" (especially in phrase to cast the glamour), a variant of Scot. gramarye "magic, enchantment, spell," alt. of Eng. grammar (q.v.) with a medieval sense of "any sort of scholarship, especially occult learning." Popularized by the writings of Sir Walter Scott (1771-1832). Sense of "magical beauty, alluring charm" first recorded 1840. Glamorous is 1882 (slang shortening glam first attested 1936); glamorize is 1936.
Glamour: 1720, "magic, enchantment" (especially in phrase to cast the glamour), a variant of Scot. gramarye "magic, enchantment, spell," alt. of Eng. grammar (q.v.) with a medieval sense of "any sort of scholarship, especially occult learning." Popularized by the writings of Sir Walter Scott (1771-1832). Sense of "magical beauty, alluring charm" first recorded 1840. Glamorous is 1882 (slang shortening glam first attested 1936); glamorize is 1936.
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