terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Amar como ama o black (beans)

Foi estranho acordar lembrando de uma figuraça da década de 70. Gerson King Combo. Alguém lembra? Negão, óculos escuros, elegante que só. Ele me veio à cabeça com o incômodo da saudade. Adorava vê-lo dançar. Que James Brown que nada. Na saída da minha infância, eu vibrava mesmo era com Gerson King Combo.
O dia começou com as imagens vagas do negão sumido e se embrenhou total para a nostalgia. Sem empregada, resolvi cozinhar umas naturebices. Notei que havia uns grãos bem escurinhos e estranhos no feijão azuki. Fiquei lá catando os que iam para a panela. Minha avó e minha mãe "escolhiam" o arroz e o feijão. Nunca mais vi ninguém fazendo isso. As pessoas vão abandonando as tradições por pressa, solidão ou percepção desgostosa da inutilidade dos atos. "Escolher" feijão durava muitos minutos na minha casa. Os grãos eram remexidos para lá e para cá, um movimento que só acabava quando não havia mais o que falar sobre a vida dos outros na cozinha. Era uma terapia em grupo, a casa inteira reunida, olhos fixos no movimento e língua afiada. Às vezes, havia silêncio, mas os olhos permaneciam fixos no trabalho alheio. Quando isso acontecia, era em respeito às lágrimas da cozinheira que por algum tormento entristecera. A solidariedade se mantinha na presença muda. Agora só me falam de individualidade, sem olhar solidário, sem apoio amigo. Meditação em vez de catarse. Isso é o chique. O respeito é manter a distância, falar com o motorista somente o indispensável. Ai, que triste esse mundo que estamos construindo de bocas em que não entram mosquitos para termos histórias a contar.

6 comentários:

zé josé disse...

vê lá:
http://www.youtube.com/watch?v=PAElCiWdbmM

beijos

Ana Silvia Mineiro disse...

adorei.
viu um também com a Lady Zu.
beijos

Carneiro disse...

O seu post perceptivo sobre catacao de feijao e falar ao motorista somente o indispensavel, nota-se influencia do cotao.... La em casa tudo era catado e ainda eh, os tomates dos meus pais nao tem sementes, eram coisas a serem "catadas", voce como cronista do cotidiano daria um samba e rebolado a mais.... Excepcional o texto combinando feijao preto que soh se come aqui na nossa seara com Gerson King... Eu me lembro de vagar nas ruas e ver chamadas para Flavio Espirito Santo e la nave va pois era rock, como Sergio e Mutantes em formacao posterior ou mesmo Vimana que era tudo com Lulu Santos na guitarra e Lobao na bateria.... Era pros mais doidecos de jovem que se atreviam a antever o que nao viria a ser... Belo blog, essa eh a firmeza dos textos que nao vao embora, muito mais sem medos medeiros que martas....

Ana Silvia Mineiro disse...

Obrigada pelo legítimo texto ovino, Tchu.
Beijo grande

Anônimo disse...

Minha mãe catava feijão conversando com minha avó, e me dava cascudo quando eu chegava atrapalhando. Hoje catamos páginas como a sua.

Ana Silvia Mineiro disse...

Que coisa mais linda. Por que não assinou? Queria saber quem é essa pessoa que me alegrou o coração depois de tanto tempo.