VERSOS NACIDOS AL FUEGO DEL AMOR
Vivo sin vivir en mí, y de tal manera espero, que muero porque no muero.
Vivo ya fuera de mí después que muero de amor; porque vivo en el Señor, que me quiso para sí; cuando el corazón le di puse en él este letrero: que muero porque no muero.
Esta divina prisión del amor con que yo vivo ha hecho a Dios mi cautivo, y libre mi corazón; y causa en mí tal pasión ver a Dios mi prisionero, que muero porque no muero.
¡Ay, qué larga es esta vida! ¡Qué duros estos destierros, esta cárcel, estos hierros en que el alma está metida! Sólo esperar la salida me causa dolor tan fiero, que muero porque no muero.
¡Ay, qué vida tan amarga do no se goza el Señor! Porque si es dulce el amor, no lo es la esperanza larga. Quíteme Dios esta carga, más pesada que el acero, que muero porque no muero.
Sólo con la confianza vivo de que he de morir, porque muriendo, el vivir me asegura mi esperanza. Muerte do el vivir se alcanza, no te tardes, que te espero, que muero porque no muero.
Mira que el amor es fuerte, vida, no me seas molesta; mira que sólo te resta, para ganarte, perderte. Venga ya la dulce muerte, el morir venga ligero, que muero porque no muero.
Aquella vida de arriba es la vida verdadera; hasta que esta vida muera, no se goza estando viva. Muerte, no me seas esquiva; viva muriendo primero, que muero porque no muero.
Vida, ¿qué puedo yo darle a mi Dios, que vive en mí, si no es el perderte a ti para mejor a Él gozarle? Quiero muriendo alcanzarle, pues tanto a mi Amado quiero, que muero porque no muero.
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
QUE DÚVIDA TINHAS QUE O FOGO PASSARIA POR TI?
Bastava ficares em silêncio,
aguardares a passagem do vento,
a crueldade das flores acesas,
outras luzes ao sul.
O tempo passou, como a carroça dos ciganos a fechar a feira.
aqui só ficaram as tendas mais pobres e escuras.
Ainda acreditas que o fogo passará por ti?
MÚSICA CALADA
Dizias que nos sobram as palavras:
e era o lugar perfeito para as coisas
esse escuro vazio no teu olhar.
E demorava a dura paciência,
fruto do frio nas nossas mãos vazias
que mais coisas não tinham para dar.
Dizia então a dor o nosso gesto
e durava nas coisas mais antigas
a solidão sem rasto que há no mar.
(Luís Filipe Castro Mendes)
Bastava ficares em silêncio,
aguardares a passagem do vento,
a crueldade das flores acesas,
outras luzes ao sul.
O tempo passou, como a carroça dos ciganos a fechar a feira.
aqui só ficaram as tendas mais pobres e escuras.
Ainda acreditas que o fogo passará por ti?
MÚSICA CALADA
Dizias que nos sobram as palavras:
e era o lugar perfeito para as coisas
esse escuro vazio no teu olhar.
E demorava a dura paciência,
fruto do frio nas nossas mãos vazias
que mais coisas não tinham para dar.
Dizia então a dor o nosso gesto
e durava nas coisas mais antigas
a solidão sem rasto que há no mar.
(Luís Filipe Castro Mendes)
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
domingo, 10 de agosto de 2008
terça-feira, 29 de julho de 2008
Meu Evangelho de sempre
Agora, que chegaste à idade avançada de quinze anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: Alice no País das Maravilhas.
Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti.
Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade.
A realidade, Maria, é louca.
Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: "Fala a verdade, Dinah, já comeste um morcego?"
Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. "Quem sou eu no mundo?" Essa indagação perplexa é o lugar – comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.
A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: "Estou tão cansada de estar aqui sozinha!" O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas (nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados) conseguem abrir uma porta bem fechada, e vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.
Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial e temos a presunção petulante de esperar dela grandes conseqüências. Quando Alice comeu o bolo, e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo.
Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria têm de ser grave.
A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: "Oh, I beg your pardon!" Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para tua sabedoria de bolso: se gosta de gatos, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: "Gostarias de gatos se fosses eu?"
Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados, todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: "A corrida terminou! mas quem ganhou ?" É bobice Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não irá saber quem venceu. Se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre aonde quiseres, ganhaste.
Disse o ratinho: "Minha história é longa e triste!" Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: "Minha vida daria um romance". Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance é só o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energicamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: "Minha vida daria um romance!" Sobretudo dos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.
Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: "Devo estar diminuindo de novo". Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente.
E escuta esta parábola perfeita: Alice tinha diminuído tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e de rinicerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. E como tomar o pequeno por grande e o grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom humor.
Toda pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para as grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.
Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: "Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas".
Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça.
(Paulo Mendes Campos, Para Maria da Graça, in Para gostar de ler, crônicas, São Paulo, Ática, 1979, v.4, p.73-76.)
Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti.
Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade.
A realidade, Maria, é louca.
Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: "Fala a verdade, Dinah, já comeste um morcego?"
Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. "Quem sou eu no mundo?" Essa indagação perplexa é o lugar – comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.
A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: "Estou tão cansada de estar aqui sozinha!" O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas (nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados) conseguem abrir uma porta bem fechada, e vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.
Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial e temos a presunção petulante de esperar dela grandes conseqüências. Quando Alice comeu o bolo, e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo.
Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria têm de ser grave.
A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: "Oh, I beg your pardon!" Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para tua sabedoria de bolso: se gosta de gatos, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: "Gostarias de gatos se fosses eu?"
Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados, todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: "A corrida terminou! mas quem ganhou ?" É bobice Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não irá saber quem venceu. Se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre aonde quiseres, ganhaste.
Disse o ratinho: "Minha história é longa e triste!" Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: "Minha vida daria um romance". Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance é só o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energicamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: "Minha vida daria um romance!" Sobretudo dos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.
Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: "Devo estar diminuindo de novo". Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente.
E escuta esta parábola perfeita: Alice tinha diminuído tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e de rinicerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. E como tomar o pequeno por grande e o grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom humor.
Toda pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para as grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.
Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: "Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas".
Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça.
(Paulo Mendes Campos, Para Maria da Graça, in Para gostar de ler, crônicas, São Paulo, Ática, 1979, v.4, p.73-76.)
segunda-feira, 30 de junho de 2008
Minha história, por um vizinho
Abstract: ESTA HISTÓRIA É ABSOLUTAMENTE VERDADEIRA PORQUE EU A INVENTEI DO INÍCIO AO FIM
Capítulo I
Ana Silvia era assim, uma boa menina. De formação cristã estava entre as melhores alunas do Sacré-Coeur de Marie. Fazia suas orações todos os dias muito cedo e era quem ficava mais tempo fazendo a comunhão, sempre composta de boas hóstias e vinhos de grande qualidade. Neste momento da história entram os beneditinos: Hostias
Liva
Composição: Indisponível
Hostias
Hostias et preces tibi,
Domine laudis offerimus
Tu suscipe pro animabus illis,
Hostias, hostias, hostias, et preces tibi (x4)
Fac eas, Domine, de morte transire
Ad vitam, quam olim
Abrahae promisisti et semine eius.
Hostias, hostias, hostias, et preces tibi (x4)
Hostias, hostias, hostias, et preces tibi (x4)
Era de se estranhar, à epoca, o tempo que Ana Silvia, que adolescia pudica, dedicava aos vinhos e em geral aos brancos que, contra a luz da sacristia, davam a nítida impressão de água benta. Era assim que Ana Sivia (AS) tratava os brancos, "água benta." Aos tintos com ternura, chamava-os apenas "tintas". Vez por outra os misturava e chamava-os "rosas". Essas eram suas principais brincadeiras. As misturas de água benta com tintas. Enquanto suas amiguinhas, cantavam: se esta rua, esta rua, fôsse minha eu mandava, eu mandava ladrilhar.... ou : no céu, no céu, com minha mãe estarei... Ana Silvia misturava e embalava suas canções com músicas hereges e blasfemas como: Bebe Negão, Se fôsse (sic) pensa que cachaça é aqua (SIC) cachaça nom é áqua nom, enfim uma pecadora mirim ainda "lato sensu".
Capítulo II
O tempo passou e hoje Ana Silvia é uma próspera empresária da indústria de confecções de malhas que detém a grife: PEQUENOS PECADOS ou PESCOÇÃO que promove seus produtos com o mkt: COMPRE UMA CAMISETA DA PEQUENOS PECADOS E GANHE UMA MOCHILA
Capítulo I
Ana Silvia era assim, uma boa menina. De formação cristã estava entre as melhores alunas do Sacré-Coeur de Marie. Fazia suas orações todos os dias muito cedo e era quem ficava mais tempo fazendo a comunhão, sempre composta de boas hóstias e vinhos de grande qualidade. Neste momento da história entram os beneditinos: Hostias
Liva
Composição: Indisponível
Hostias
Hostias et preces tibi,
Domine laudis offerimus
Tu suscipe pro animabus illis,
Hostias, hostias, hostias, et preces tibi (x4)
Fac eas, Domine, de morte transire
Ad vitam, quam olim
Abrahae promisisti et semine eius.
Hostias, hostias, hostias, et preces tibi (x4)
Hostias, hostias, hostias, et preces tibi (x4)
Era de se estranhar, à epoca, o tempo que Ana Silvia, que adolescia pudica, dedicava aos vinhos e em geral aos brancos que, contra a luz da sacristia, davam a nítida impressão de água benta. Era assim que Ana Sivia (AS) tratava os brancos, "água benta." Aos tintos com ternura, chamava-os apenas "tintas". Vez por outra os misturava e chamava-os "rosas". Essas eram suas principais brincadeiras. As misturas de água benta com tintas. Enquanto suas amiguinhas, cantavam: se esta rua, esta rua, fôsse minha eu mandava, eu mandava ladrilhar.... ou : no céu, no céu, com minha mãe estarei... Ana Silvia misturava e embalava suas canções com músicas hereges e blasfemas como: Bebe Negão, Se fôsse (sic) pensa que cachaça é aqua (SIC) cachaça nom é áqua nom, enfim uma pecadora mirim ainda "lato sensu".
Capítulo II
O tempo passou e hoje Ana Silvia é uma próspera empresária da indústria de confecções de malhas que detém a grife: PEQUENOS PECADOS ou PESCOÇÃO que promove seus produtos com o mkt: COMPRE UMA CAMISETA DA PEQUENOS PECADOS E GANHE UMA MOCHILA
segunda-feira, 23 de junho de 2008
domingo, 22 de junho de 2008
A mulher seqüelada - Leia, amiga
Seqüelada. Haverá prazer maior do que uma palavra nova numa mulher das antigas? As letrinhas morrem de rir, a moça infelizmente não pára de chorar e de perguntar. O que aconteceu? Seqüelas doem. Por muito. Ligue seu aparelho estereofônico e escute as duas. Já teve a mulata que não está no mapa, o remédio que o doutor me receitou e tantas outras. Todas lindas. As certinhas do Lalau, as garotas do Alceu, as dez mais, as chacretes, as existencialistas com toda razão, as boazudas, as frenéticas, as sufraguetes, as marias chuteiras, as socialites, os brotos, as gatinhas, as cachorras e as eternas cinéfilas cubistas do Estação. Agora é a vez da mulher seqüelada, a mais triste. O trema é antigo, o sentido novo. O problema, coitadas, o mesmo de sempre. O medo, a quase certeza, de que neste momento existe outra tocando a pele dele e o enleio de ontem, o conluio da véspera, foi o último. O medo, a absoluta certeza de constatar que o amor é feito de mãos e dentes, o resto se desfaz na vaguitude dos espíritos, no desespero das saudades, na obsessão eterna, amém. A seqüelada não está no dicionário. Houaiss. Aurélio. Eles não sabiam ainda. Perderam este bonde semântico. Homens tradicionais, todos bem casados, não sabiam nada do pegapracapá amoroso. Nossos dicionaristas não tiveram o prazer. Pularam o verbete. Maysa era uma seqüelada quando cantava meu mundo caiu e me fez ficar assim. Estropiada. Desparagonada. Anarquizada. De quatro. Ela sofria. Dois imensos olhos não pacíficos chorando abandonos semestrais. Nora Ney, então, nem se fala. Ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de bem me quer. Hoje há cantoras ecléticas, seqüelada nenhuma se admite. Seqüelada, ouço-as maldizer, ficava a vovozinha. Não que seja praga-e-budapeste insuperáveis. Não lhes ria. Acontece um dia e a todas em sua hora de desespero o rótulo lhes caberá naquele esgar de sempre. Ali, na esquina do buço dourado com a covinha da bochecha. Todos saberão ou, os mais míopes, ouvirão que você não balbucia outra coisa. Ele. Sumiu. Volta? Há a mulher da vida, a Maria ninguém, a canhão, a hippie, a vai com as outras, a vizinha faladeira. A seqüelada já estava nas cavernas egípcias, nenhuma novidade no seu despudor sofrido. Os gregos, os portugueses, os fenícios, todos os homens em algum momento iam embora e deixavam a pobre coitada a perguntar para os amigos. Por quê? Disse que me queria. Rimou as mais doidas poesias. O amor é sentimento ou matéria? Dar ou receber? Por que o espírito é tão possessivo? Noventa por cento do tempo dela são dedicados a tentar entender o na maioria das vezes verbalmente inexplicável. Ele não ligou. Disse que vinha. A mulher seqüelada é isso que você já percebeu. Aquela que ficou traumatizada pela tristeza que Vinicius anunciava na canção. Se a vida é a arte do encontro por que tanto desencontro nessa vida. Eu encontrei uma seqüelada dias atrás e ela me foi sincera no pedido. Que eu a ajudasse a colocá-la no sono daquele certo homem e ele nunca mais dormisse em paz. Nunca mais acertasse o tom de uma música, nunca mais concordasse o verbo com o sujeito, nunca mais acertasse o foco e a luz de uma maldita foto. Que a seqüela atravessasse a rua, sem sinalizar seu novo rumo, e de surpresa, como o carcamano tinha feito com ela, como uma Pajero desgovernada, agora o atingisse — e eu amanhã publicasse no jornal a mais linda das notícias. Que os sinais vitais do indigitado, o seu orgulho de macho, a soberba dos que abandonam, já não estavam mais preservados. Havia se ido desta para uma pior e que a assombração de seu grito de orgasmo pairasse toda noite sobre aquela última a quem ele havia tocado a pele. Só assim ela, a seqüelada que me pede ajuda, se libertaria de reinventar todos os dias os olhos de desejos que ele, ainda anteontem pela manhã, debruçava sobre seu corpo. Só assim ela se livraria do gosto da hóstia consagrada que em seguida ele colocou, recitando o mantra lírico-safado dos amantes, em sua boca arfante. Ela queria mais, mais, mais, e agora sabia tudo em vão. A seqüelada é aquela que se espanta com a voz do corvo na orelha. Nunca mais. Nunca mais. Certas noites ela pede para que a igreja evangélica logo ao lado amplifique dez vezes os gritos de aleluia e lhe apague o corvo das orelhas. Mas o corvo também tem seu sistema de som e TV. Nunca mais é nunca mais. Fala mais alto. Maria Adelaide do Amaral, da minissérie “JK” me perguntou outro dia. Como se dizia lésbica nos anos 50, já que lésbica propriamente não se dizia nos anos dourados da repressão sexual. Cassandra Rios parece que carregava o estigma, nenhuma mais. Sexo não era essa alaúza de agora. Eu arrisquei paraíba e parece que alguém vai ser chamada assim na TV. Não vem ao caso. Seqüelada não tem nada a ver com isso. Pelo contrário. Ela gosta é dos homens, mas geralmente dos homens errados. Tem a ver com a paraíba, mulher macho, sim senhor, apenas porque os rótulos são cruéis e ajudam a entender em quatro sílabas as 500 páginas da odisséia de Ulisses. Entre os adolescentes, por exemplo, há uma seqüelada diferente. Para eles a seqüelada é apenas a mulher lerda, meio viajandona , que não entende bem as coisas. Sofre das idéias, os buracos da maconha já apagando uns arquivos da memória. Na faixa acima dos 30 anos as seqüelas são outras. Atacam o coração. A seqüela identifica a vítima de um cretino qualquer que prometeu mundos, fundos e uma viagem para os cafundós mais profundos onde ninguém interromperia a pressa de suas mãos e dentes. Foi o que ela entendeu e agora ei-la aqui. De quatro, feito a outra. Na véspera do Natal, na noite de aniversário, minutos depois de ter sido presenteado com uma caixa de DVDs dos Beatles, o cara não explicou muito bem o que estava acontecendo para aquele súbito tremor nos artelhos. Arriscou umas palavras vagas sobre a complexidade de se estabelecer um tempo comum entre eles. Parou no meio de uma frase sobre a falta de sintonia entre a ambição física e a correspondência dos sentidos. Olhou turvo para a mosca varejeira que passeava sobre a pia. Bateu a porta como se fosse ali no quiosque comprar flores. E foi. Para sempre. Nem se dignou ao aviso. Era a extrema-unção dos católicos, a saideira do Braca, o baile da cremação das tristezas dos carnavalescos, o último acorde para os melômanos, o trilar do apito para os boleiros. Bateu a porta e inaugurou no peito de mais uma muher a seqüela terçã que a tudo embaça e não deixa crer que amanhã, e nem mesmo depois do carnaval de satisfaction dos Rolling Stones, nunca mais será outro dia. Maldito o amor lhe seja.
(Joaquim Ferreira dos Santos)
(Joaquim Ferreira dos Santos)
Um fado-homenagem
Talvez por muito amar a liberdade
Invejo a vida livre dos pardais
Mas prende bem teus braços sem piedade
E eu juro da prisão não sair mais.
Não posso ouvir o fado sem vibrar
E não domino em mim a febre de o cantar
Mas dá-me um beijo teu fremente
Verás que fico assim, calado eternamente.
Adoro a luz do sol que me alumia
Por grata e singular mercê de Deus
Mas fecha-me num quarto noite e dia
E eu troco a luz do sol pelos olhos teus
Não posso ouvir o fado sem vibrar...
Baixinho aqui pra nós, muito em segredo
Eu sempre fui medroso até mais não
Mas pra que sejas minha não tenho medo
Nem mesmo de perder a salvação.
Não posso ouvir o fado
sem vibrar...
(Frederico De Freitas / Silva Tavares)
Invejo a vida livre dos pardais
Mas prende bem teus braços sem piedade
E eu juro da prisão não sair mais.
Não posso ouvir o fado sem vibrar
E não domino em mim a febre de o cantar
Mas dá-me um beijo teu fremente
Verás que fico assim, calado eternamente.
Adoro a luz do sol que me alumia
Por grata e singular mercê de Deus
Mas fecha-me num quarto noite e dia
E eu troco a luz do sol pelos olhos teus
Não posso ouvir o fado sem vibrar...
Baixinho aqui pra nós, muito em segredo
Eu sempre fui medroso até mais não
Mas pra que sejas minha não tenho medo
Nem mesmo de perder a salvação.
Não posso ouvir o fado
sem vibrar...
(Frederico De Freitas / Silva Tavares)
quinta-feira, 19 de junho de 2008
quarta-feira, 18 de junho de 2008
Conflito
Ai, meu coração que não entende
O compasso do meu pensamento
O pensamento se protege
E o coração, se entrega inteiro
sem razão
Se o pensamento foge dela
O coração a busca, aflito
E o corpo todo sai
tremendo
Massacrado e ferido do
conflito...
(Petrúcio Maia /Climério)
O compasso do meu pensamento
O pensamento se protege
E o coração, se entrega inteiro
sem razão
Se o pensamento foge dela
O coração a busca, aflito
E o corpo todo sai
tremendo
Massacrado e ferido do
conflito...
(Petrúcio Maia /Climério)
segunda-feira, 9 de junho de 2008
The Shining

Ter o que dizer, arrancar a ferro as palavras de dentro. Ai, que esforço... Ando calada observando os passos, não, não à espreita, mas curiosa com os movimentos. As ações me instigam, mas não vou além disso. Aqui, quieta, tenho a mim e a você. É o que quero que dure. Sem tempo. Já corri os riscos e durmo sobre um alçapão.
Minha cabeça está cansada. Trabalho, trabalho, trabalho. Só trabalho sem diversão faz de jack um bobão. O Iluminado. Um filmaço. Gosto de Kubrick muita coisa, mas hoje não. Hoje, quero ir para o travesseiro pensar no Pai, no Filho e no Espírito Santo. Rezar por nós, agora e na hora de nossa morte. Assim seja.
sexta-feira, 6 de junho de 2008
segunda-feira, 2 de junho de 2008
quinta-feira, 29 de maio de 2008
Cântico dos Cânticos (Salomão)
"Beije-me ele com os beijos da sua boca; porque melhor é o teu amor do que o vinho."
quarta-feira, 28 de maio de 2008
O que vejo na parede vazia à minha frente
A pedido de um visitante do blog, vou fazer esse exercício.
Para enxergar a parede vazia, tenho que me abstrair do computador, bem mais próximo que a parede. Sim, agora não há nada, só a tinta verdinha. (Sou interrompida pelo gol do Fluminense de empate em 2 a 2 e desconcentro. Volto a tentar)
Crio uma porta nessa parede e, sem entrar nem sair, ali está o meu sonho, com nome e rosto. Às vezes, fica maior que a porta e paralisa o vento. Não há mais parede, mas uma passagem interrompida. Atenta aos meus batimentos cardíacos por estar tão próxima ao sonho, percebo que há ritmo e calma, mas não estou segura de que seja de todo paz. Neste momento, tenho a certeza de não querer que nada se perca ao redor, então, não me movo, contemplo quieta. Ele, o sonho, continua ali, pertinho, brincando de girar na porta como uma catraca, criança.
Nunca haverá vazio na minha parede nem em nada que eu olhe e tampouco na minha vida, visitante, porque carrego meu sonho comigo e o projeto no mundo. Somos irmãos irmanados, eu e ele, e sinto que nunca estarei só. Um alívio, afinal, isso de não temer a solidão.
Para enxergar a parede vazia, tenho que me abstrair do computador, bem mais próximo que a parede. Sim, agora não há nada, só a tinta verdinha. (Sou interrompida pelo gol do Fluminense de empate em 2 a 2 e desconcentro. Volto a tentar)
Crio uma porta nessa parede e, sem entrar nem sair, ali está o meu sonho, com nome e rosto. Às vezes, fica maior que a porta e paralisa o vento. Não há mais parede, mas uma passagem interrompida. Atenta aos meus batimentos cardíacos por estar tão próxima ao sonho, percebo que há ritmo e calma, mas não estou segura de que seja de todo paz. Neste momento, tenho a certeza de não querer que nada se perca ao redor, então, não me movo, contemplo quieta. Ele, o sonho, continua ali, pertinho, brincando de girar na porta como uma catraca, criança.
Nunca haverá vazio na minha parede nem em nada que eu olhe e tampouco na minha vida, visitante, porque carrego meu sonho comigo e o projeto no mundo. Somos irmãos irmanados, eu e ele, e sinto que nunca estarei só. Um alívio, afinal, isso de não temer a solidão.
terça-feira, 27 de maio de 2008
Grande Sertão: Veredas
"Que o que gasta, vai gastando o diabo de dentro da gente, aos pouquinhos, é o razováel sofrer. E a alegria de amor - compadre meu Quelemém diz."
segunda-feira, 26 de maio de 2008
sexta-feira, 23 de maio de 2008
Sayonara
Já há meses terminei Sayonara, Gangsters, do Genichiro Takahashi. Fiquei meio elétrica quando li. Comprei o livro por acaso, acho que pelo "sayonara", por ser a palavra japonesa para despedida - e eu ando mesmo em um longo período de adeus. O livro é tudo: belo, poético, intrigante, esquisito, viajante, febril. As expressões e referências dele são saudade para mim.
"Dói dói e tenho medo medo medo".
Tenho medo. Mas, estranhamente, tenho paz nesta minha prisão de pavor. Uma tranqüilidade inquieta, é verdade. Não me jogo, por isso não caio, e assim flano paralisada na linearidade de uma vida que desconhece a espera em seu mais amplo sentido. Não é o que eu sou, mas no que me transformei temporariamente sem minhas emoções de casa dos espelhos. Conformada, sigo, só em uma direção: a do tempo. Em uma direção, só, conformada, sigo. Vou rápido para me iludir com os movimentos de fora acenando para minhas sensações congeladas. Sayonara.
"Dói dói e tenho medo medo medo".
Tenho medo. Mas, estranhamente, tenho paz nesta minha prisão de pavor. Uma tranqüilidade inquieta, é verdade. Não me jogo, por isso não caio, e assim flano paralisada na linearidade de uma vida que desconhece a espera em seu mais amplo sentido. Não é o que eu sou, mas no que me transformei temporariamente sem minhas emoções de casa dos espelhos. Conformada, sigo, só em uma direção: a do tempo. Em uma direção, só, conformada, sigo. Vou rápido para me iludir com os movimentos de fora acenando para minhas sensações congeladas. Sayonara.
quarta-feira, 21 de maio de 2008
Roubei, lalalalaiá
terça-feira, 20 de maio de 2008
segunda-feira, 19 de maio de 2008
Na praia
Você deve ter percebido. Foram alguns segundos de hesitação, o tempo de entender por que alguém que não agradece nem a e-mails de felicitação estava ali me chamando pelo nome completo num domingo ensolarado na praia. "Você caminhou até ele devagar, titubeante, como alguém indo ao encontro de uma dor inevitável", descreveu a amiga que me acompanhava. Segundos antes de ouvir sua voz, eu ria muito. Tinha visto o homem que vende CD em cima de uma bicicleta passar tocando uma música – creio que autoral, sim, respondendo à sua indagação de ontem – que diz "você me deu um pé-na-bunda e eu fui parar na ‘encruza’ de onde um dia te tirei" e me preparava performaticamente para contar à amiga a história das orações que trazem o amor de volta. Tudo parou ali. Quase tudo. Paradoxalmente, o coração acelerou e a cabeça explodiu. O que eu havia imaginado sobre um possível encontro ao acaso não era nem de longe aquela realidade suspensa.
Cheguei a você. Beijos no rosto. Na verdade, beijos no ar. As bocas também estavam desconfiadas e atentas. Você procurou quebrar o gelo meio sem jeito: "Estava pensando em você na praia. Você... nós... aqui...". Pensando em mim? Ah, sim, me lembrei da penúltima lição: as pessoas podem dizer qualquer coisa, mesmo que não seja verdade, pois vivemos cercados de mitômanos, e que se dane o sentimento do receptor. Minha resposta veio embalada em constrangimento: "Estou indo ao Arpoador. Costumo fazer de bicicleta, mas hoje vim a pé". E a conversa foi rolando evasiva. Filhos, trabalho, sua hérnia cervical. Só sei dos assuntos porque minha amiga percebeu meu estado auto-induzido de DDA e anotou tudo de cabeça para me contar depois. Ali, naquele momento, eu só olhava para seu rosto, tentando despir seus olhos claros dos óculos escuros, acessório que também me defendia de você.
Suas mãos chamaram a atenção. Elas se escondiam. Você não queria que algo fosse visto. Aliança? Tremores? As mãos brincavam ora atrás da cabeça ora atrás do corpo e ajudavam a me distrair. A amiga ofereceu água a nós dois, mas recusamos. "Vocês precisavam", comentou ela depois, elogiando minha educação e cordialidade em meio à tanta emoção – estou falando de mim, não sei o que você sentiu, pode ter sido até indiferença.
Não dissemos adeus. Só avisei que continuaria a caminhar rumo ao Arpoador, já que despedidas nunca nos caíram bem, sempre vieram seguidas de lágrimas, da minha parte, e dúvidas, de ambos. Por isso - não lhe contei por falta de disposição -, eu me esforcei para entender e engolir o choro quando peguei na minha portaria um envelope contendo R$ 80 e uma singela mensagem de "boa sorte". Ficou meio esfumaçada a história dos R$ 80, porque sempre o tive como educado o suficiente para não devolver um presente. Mas essa foi a última lição: não confie jamais na percepção dos apaixonados. O "boa sorte" botei na conta do sucesso que fazia na época a música da Vanessa da Mata com o bacaninha do Ben Harper.
Voltando à praia, confesso que desabei dez passos após deixá-lo próximo à Rua Henrique Dumont, assim que a adrenalina desconcentrou-se no meu sangue. Chorei um pouco, mas eu sempre choro mesmo. Desistimos do Arpoador por falta de areia. No Posto 9, joguei meu corpo no chão e pensei em palavras de consolo que lembravam as ondas ali: deixar vir e deixar ir, deixar vir e deixar ir...
Cheguei a você. Beijos no rosto. Na verdade, beijos no ar. As bocas também estavam desconfiadas e atentas. Você procurou quebrar o gelo meio sem jeito: "Estava pensando em você na praia. Você... nós... aqui...". Pensando em mim? Ah, sim, me lembrei da penúltima lição: as pessoas podem dizer qualquer coisa, mesmo que não seja verdade, pois vivemos cercados de mitômanos, e que se dane o sentimento do receptor. Minha resposta veio embalada em constrangimento: "Estou indo ao Arpoador. Costumo fazer de bicicleta, mas hoje vim a pé". E a conversa foi rolando evasiva. Filhos, trabalho, sua hérnia cervical. Só sei dos assuntos porque minha amiga percebeu meu estado auto-induzido de DDA e anotou tudo de cabeça para me contar depois. Ali, naquele momento, eu só olhava para seu rosto, tentando despir seus olhos claros dos óculos escuros, acessório que também me defendia de você.
Suas mãos chamaram a atenção. Elas se escondiam. Você não queria que algo fosse visto. Aliança? Tremores? As mãos brincavam ora atrás da cabeça ora atrás do corpo e ajudavam a me distrair. A amiga ofereceu água a nós dois, mas recusamos. "Vocês precisavam", comentou ela depois, elogiando minha educação e cordialidade em meio à tanta emoção – estou falando de mim, não sei o que você sentiu, pode ter sido até indiferença.
Não dissemos adeus. Só avisei que continuaria a caminhar rumo ao Arpoador, já que despedidas nunca nos caíram bem, sempre vieram seguidas de lágrimas, da minha parte, e dúvidas, de ambos. Por isso - não lhe contei por falta de disposição -, eu me esforcei para entender e engolir o choro quando peguei na minha portaria um envelope contendo R$ 80 e uma singela mensagem de "boa sorte". Ficou meio esfumaçada a história dos R$ 80, porque sempre o tive como educado o suficiente para não devolver um presente. Mas essa foi a última lição: não confie jamais na percepção dos apaixonados. O "boa sorte" botei na conta do sucesso que fazia na época a música da Vanessa da Mata com o bacaninha do Ben Harper.
Voltando à praia, confesso que desabei dez passos após deixá-lo próximo à Rua Henrique Dumont, assim que a adrenalina desconcentrou-se no meu sangue. Chorei um pouco, mas eu sempre choro mesmo. Desistimos do Arpoador por falta de areia. No Posto 9, joguei meu corpo no chão e pensei em palavras de consolo que lembravam as ondas ali: deixar vir e deixar ir, deixar vir e deixar ir...
quarta-feira, 14 de maio de 2008
segunda-feira, 12 de maio de 2008
sexta-feira, 9 de maio de 2008
Esta é a única melancia aqui
Para os bonitões que resolvem entrar no meu blog depois de ver a Mulher Melancia depiladona lá no blog do Urubu: aqui não há nada sobre ela! O taradão é o meu amigo querido, ok? Aqui é papo meio mulherzinha. Coisa poesia (lá também tem), coisa coração (lá também), diário, homenagens e coisa e tal. Mas não tem FOTO DE MULHER PELADA, NÃO.
quarta-feira, 7 de maio de 2008
terça-feira, 6 de maio de 2008
Meu Deus, por que não há sono pra mim?
Rezo para o Cristo iluminado que eu vejo da janela me ninar. Preciso fechar os olhos um pouco e não consigo. Fiz três horas e meia de ginástica e só sinto os músculos chiando. Não há cansaço que me leve para a cama. Pelo amor dos santos, paz e bem para mim. Paz e bem para todos os próximos. E mais ainda para os distantes, que eu não posso abraçar quando quero ou quando eles sentem alguma dor de repente.
Agora a tadução
A lua no espelho da cômoda
está a mil milhas, ou mais
(e se olha, talvez com orgulho,
porém não sorri jamais),
muito além do sono, eu diria,
ou então só dorme de dia.
Se o Mundo a abandonasse,
ela o mandava pro inferno,
e num lago ou num espelho
faria seu lar eterno.
- Envolve em gaze e joga
tudo que te faz sofrer
no poço desse mundo inverso
onde o esquerdo é que é o direito,
onde as sombras são os corpos,
e à noite ninguém se deita,
e o céu é raso como o oceano
é profundo, e tu me amas.
(Paulo Henriques Britto)
está a mil milhas, ou mais
(e se olha, talvez com orgulho,
porém não sorri jamais),
muito além do sono, eu diria,
ou então só dorme de dia.
Se o Mundo a abandonasse,
ela o mandava pro inferno,
e num lago ou num espelho
faria seu lar eterno.
- Envolve em gaze e joga
tudo que te faz sofrer
no poço desse mundo inverso
onde o esquerdo é que é o direito,
onde as sombras são os corpos,
e à noite ninguém se deita,
e o céu é raso como o oceano
é profundo, e tu me amas.
(Paulo Henriques Britto)
Insomnia
The moon in the bureau mirror
looks out a million miles
(and perhaps with pride, at herself,
but she never, never smiles)
far and away beyond sleep, or
perhaps she's a daytime sleeper.
By the Universe deserted,
she'd tell it to go to hell,
and she'd find a body of water,
or a mirror, on which to dwell.
So wrap up care in a cobweb
and drop it down the well
into that world inverted
where left is always right,
where the shadows are really the body,
where we stay awake all night,
where the heavens are shallow as the sea
is now deep, and you love me.
(Elizabeth Bishop)
looks out a million miles
(and perhaps with pride, at herself,
but she never, never smiles)
far and away beyond sleep, or
perhaps she's a daytime sleeper.
By the Universe deserted,
she'd tell it to go to hell,
and she'd find a body of water,
or a mirror, on which to dwell.
So wrap up care in a cobweb
and drop it down the well
into that world inverted
where left is always right,
where the shadows are really the body,
where we stay awake all night,
where the heavens are shallow as the sea
is now deep, and you love me.
(Elizabeth Bishop)
segunda-feira, 5 de maio de 2008
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