Falar é completamente fácil, quando se tem palavras em mente que expressem sua opinião.
Difícil é expressar por gestos e atitudes o que realmente queremos dizer, o quanto queremos dizer, antes que a pessoa se vá.
Fácil é julgar pessoas que estão sendo expostas pelas circunstâncias.
Difícil é encontrar e refletir sobre os seus erros, ou tentar fazer diferente algo que já fez muito errado.
Fácil é ser colega, fazer companhia a alguém, dizer o que ele deseja ouvir.
Difícil é ser amigo para todas as horas e dizer sempre a verdade quando for preciso.
E com confiança no que diz.
Fácil é analisar a situação alheia e poder aconselhar sobre esta situação.
Difícil é vivenciar esta situação e saber o que fazer ou ter coragem pra fazer.
Fácil é demonstrar raiva e impaciência quando algo o deixa irritado.
Difícil é expressar o seu amor a alguém que realmente te conhece, te respeita e te entende.
E é assim que perdemos pessoas especiais.
Fácil é mentir aos quatro ventos o que tentamos camuflar.
Difícil é mentir para o nosso coração.
Fácil é ver o que queremos enxergar.
Difícil é saber que nos iludimos com o que achávamos ter visto.
Admitir que nos deixamos levar, mais uma vez, isso é difícil.
Fácil é dizer "oi" ou "como vai?"
Difícil é dizer "adeus", principalmente quando somos culpados pela partida de alguém de nossas vidas...
Fácil é abraçar, apertar as mãos, beijar de olhos fechados.
Difícil é sentir a energia que é transmitida.
Aquela que toma conta do corpo como uma corrente elétrica quando tocamos a pessoa certa.
Fácil é querer ser amado.
Difícil é amar completamente só.
Amar de verdade, sem ter medo de viver, sem ter medo do depois. Amar e se entregar, e aprender a dar valor somente a quem te ama.
Fácil é ouvir a música que toca.
Difícil é ouvir a sua consciência, acenando o tempo todo, mostrando nossas escolhas erradas.
Fácil é ditar regras.
Difícil é seguí-las.
Ter a noção exata de nossas próprias vidas, ao invés de ter noção das vidas dos outros.
Fácil é perguntar o que deseja saber.
Difícil é estar preparado para escutar esta resposta ou querer entender a resposta.
Fácil é chorar ou sorrir quando der vontade.
Difícil é sorrir com vontade de chorar ou chorar de rir, de alegria.
Fácil é dar um beijo.
Difícil é entregar a alma, sinceramente, por inteiro.
Fácil é sair com várias pessoas ao longo da vida.
Difícil é entender que pouquíssimas delas vão te aceitar como você é e te fazer feliz por inteiro.
Fácil é ocupar um lugar na caderneta telefônica.
Difícil é ocupar o coração de alguém, saber que se é realmente amado.
Fácil é sonhar todas as noites.
Difícil é lutar por um sonho.
Eterno, é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade, que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata.
(Drummond)
terça-feira, 29 de janeiro de 2008
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
Alice não mora mais aqui
Ouço miados de gato no telhado
Subo devagar, cautela nas pernas
Firmeza sobre as telhas incertas.
Não há nada lá.
Nunca nada há.
Gatinho de Cheshire, deixa teu riso
Meu mundo é um toco oco
De chás e delírios que tremem.
Por que fazer chorar?
Chorar clareia o olhar?
Cansam-me todos os conflitos
Abandono-me à tua espera
Gato rosa da minha infância.
Vem, anjo, pra cá.
Alice deve tardar.
Subo devagar, cautela nas pernas
Firmeza sobre as telhas incertas.
Não há nada lá.
Nunca nada há.
Gatinho de Cheshire, deixa teu riso
Meu mundo é um toco oco
De chás e delírios que tremem.
Por que fazer chorar?
Chorar clareia o olhar?
Cansam-me todos os conflitos
Abandono-me à tua espera
Gato rosa da minha infância.
Vem, anjo, pra cá.
Alice deve tardar.
terça-feira, 8 de janeiro de 2008
Amar como ama o black (beans)
Foi estranho acordar lembrando de uma figuraça da década de 70. Gerson King Combo. Alguém lembra? Negão, óculos escuros, elegante que só. Ele me veio à cabeça com o incômodo da saudade. Adorava vê-lo dançar. Que James Brown que nada. Na saída da minha infância, eu vibrava mesmo era com Gerson King Combo.
O dia começou com as imagens vagas do negão sumido e se embrenhou total para a nostalgia. Sem empregada, resolvi cozinhar umas naturebices. Notei que havia uns grãos bem escurinhos e estranhos no feijão azuki. Fiquei lá catando os que iam para a panela. Minha avó e minha mãe "escolhiam" o arroz e o feijão. Nunca mais vi ninguém fazendo isso. As pessoas vão abandonando as tradições por pressa, solidão ou percepção desgostosa da inutilidade dos atos. "Escolher" feijão durava muitos minutos na minha casa. Os grãos eram remexidos para lá e para cá, um movimento que só acabava quando não havia mais o que falar sobre a vida dos outros na cozinha. Era uma terapia em grupo, a casa inteira reunida, olhos fixos no movimento e língua afiada. Às vezes, havia silêncio, mas os olhos permaneciam fixos no trabalho alheio. Quando isso acontecia, era em respeito às lágrimas da cozinheira que por algum tormento entristecera. A solidariedade se mantinha na presença muda. Agora só me falam de individualidade, sem olhar solidário, sem apoio amigo. Meditação em vez de catarse. Isso é o chique. O respeito é manter a distância, falar com o motorista somente o indispensável. Ai, que triste esse mundo que estamos construindo de bocas em que não entram mosquitos para termos histórias a contar.
O dia começou com as imagens vagas do negão sumido e se embrenhou total para a nostalgia. Sem empregada, resolvi cozinhar umas naturebices. Notei que havia uns grãos bem escurinhos e estranhos no feijão azuki. Fiquei lá catando os que iam para a panela. Minha avó e minha mãe "escolhiam" o arroz e o feijão. Nunca mais vi ninguém fazendo isso. As pessoas vão abandonando as tradições por pressa, solidão ou percepção desgostosa da inutilidade dos atos. "Escolher" feijão durava muitos minutos na minha casa. Os grãos eram remexidos para lá e para cá, um movimento que só acabava quando não havia mais o que falar sobre a vida dos outros na cozinha. Era uma terapia em grupo, a casa inteira reunida, olhos fixos no movimento e língua afiada. Às vezes, havia silêncio, mas os olhos permaneciam fixos no trabalho alheio. Quando isso acontecia, era em respeito às lágrimas da cozinheira que por algum tormento entristecera. A solidariedade se mantinha na presença muda. Agora só me falam de individualidade, sem olhar solidário, sem apoio amigo. Meditação em vez de catarse. Isso é o chique. O respeito é manter a distância, falar com o motorista somente o indispensável. Ai, que triste esse mundo que estamos construindo de bocas em que não entram mosquitos para termos histórias a contar.
domingo, 6 de janeiro de 2008
Olha só o achado, Rozane, a vingadora
A mulher seqüelada
Seqüelada. Haverá prazer maior do que uma palavra nova numa mulher das antigas? As letrinhas morrem de rir, a moça infelizmente não pára de chorar e de perguntar. O que aconteceu? Seqüelas doem. Por muito. Ligue seu aparelho estereofônico e escute as duas. Já teve a mulata que não está no mapa, o remédio que o doutor me receitou e tantas outras. Todas lindas. As certinhas do Lalau, as garotas do Alceu, as dez mais, as chacretes, as existencialistas com toda razão, as boazudas, as frenéticas, as sufraguetes, as marias chuteiras, as socialites, os brotos, as gatinhas, as cachorras e as eternas cinéfilas cubistas do Estação. Agora é a vez da mulher seqüelada, a mais triste. O trema é antigo, o sentido novo. O problema, coitadas, o mesmo de sempre. O medo, a quase certeza, de que neste momento existe outra tocando a pele dele e o enleio de ontem, o conluio da véspera, foi o último. O medo, a absoluta certeza de constatar que o amor é feito de mãos e dentes, o resto se desfaz na vaguitude dos espíritos, no desespero das saudades, na obsessão eterna, amém. A seqüelada não está no dicionário. Houaiss. Aurélio. Eles não sabiam ainda. Perderam este bonde semântico. Homens tradicionais, todos bem casados, não sabiam nada do pegapracapá amoroso. Nossos dicionaristas não tiveram o prazer. Pularam o verbete. Maysa era uma seqüelada quando cantava meu mundo caiu e me fez ficar assim. Estropiada. Desparagonada. Anarquizada. De quatro. Ela sofria. Dois imensos olhos não pacíficos chorando abandonos semestrais. Nora Ney, então, nem se fala. Ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de bem me quer. Hoje há cantoras ecléticas, seqüelada nenhuma se admite. Seqüelada, ouço-as maldizer, ficava a vovozinha. Não que seja praga-e-budapeste insuperáveis. Não lhes ria. Acontece um dia e a todas em sua hora de desespero o rótulo lhes caberá naquele esgar de sempre. Ali, na esquina do buço dourado com a covinha da bochecha. Todos saberão ou, os mais míopes, ouvirão que você não balbucia outra coisa. Ele. Sumiu. Volta? Há a mulher da vida, a Maria ninguém, a canhão, a hippie, a vai com as outras, a vizinha faladeira. A seqüelada já estava nas cavernas egípcias, nenhuma novidade no seu despudor sofrido. Os gregos, os portugueses, os fenícios, todos os homens em algum momento iam embora e deixavam a pobre coitada a perguntar para os amigos. Por quê? Disse que me queria. Rimou as mais doidas poesias. O amor é sentimento ou matéria? Dar ou receber? Por que o espírito é tão possessivo? Noventa por cento do tempo dela são dedicados a tentar entender o na maioria das vezes verbalmente inexplicável. Ele não ligou. Disse que vinha. A mulher seqüelada é isso que você já percebeu. Aquela que ficou traumatizada pela tristeza que Vinicius anunciava na canção. Se a vida é a arte do encontro por que tanto desencontro nessa vida. Eu encontrei uma seqüelada dias atrás e ela me foi sincera no pedido. Que eu a ajudasse a colocá-la no sono daquele certo homem e ele nunca mais dormisse em paz. Nunca mais acertasse o tom de uma música, nunca mais concordasse o verbo com o sujeito, nunca mais acertasse o foco e a luz de uma maldita foto. Que a seqüela atravessasse a rua, sem sinalizar seu novo rumo, e de surpresa, como o carcamano tinha feito com ela, como uma Pajero desgovernada, agora o atingisse — e eu amanhã publicasse no jornal a mais linda das notícias. Que os sinais vitais do indigitado, o seu orgulho de macho, a soberba dos que abandonam, já não estavam mais preservados. Havia se ido desta para uma pior e que a assombração de seu grito de orgasmo pairasse toda noite sobre aquela última a quem ele havia tocado a pele. Só assim ela, a seqüelada que me pede ajuda, se libertaria de reinventar todos os dias os olhos de desejos que ele, ainda anteontem pela manhã, debruçava sobre seu corpo. Só assim ela se livraria do gosto da hóstia consagrada que em seguida ele colocou, recitando o mantra lírico-safado dos amantes, em sua boca arfante. Ela queria mais, mais, mais, e agora sabia tudo em vão. A seqüelada é aquela que se espanta com a voz do corvo na orelha. Nunca mais. Nunca mais. Certas noites ela pede para que a igreja evangélica logo ao lado amplifique dez vezes os gritos de aleluia e lhe apague o corvo das orelhas. Mas o corvo também tem seu sistema de som e TV. Nunca mais é nunca mais. Fala mais alto. Maria Adelaide do Amaral, da minissérie “JK” me perguntou outro dia. Como se dizia lésbica nos anos 50, já que lésbica propriamente não se dizia nos anos dourados da repressão sexual. Cassandra Rios parece que carregava o estigma, nenhuma mais. Sexo não era essa alaúza de agora. Eu arrisquei paraíba e parece que alguém vai ser chamada assim na TV. Não vem ao caso. Seqüelada não tem nada a ver com isso. Pelo contrário. Ela gosta é dos homens, mas geralmente dos homens errados. Tem a ver com a paraíba, mulher macho, sim senhor, apenas porque os rótulos são cruéis e ajudam a entender em quatro sílabas as 500 páginas da odisséia de Ulisses. Entre os adolescentes, por exemplo, há uma seqüelada diferente. Para eles a seqüelada é apenas a mulher lerda, meio viajandona , que não entende bem as coisas. Sofre das idéias, os buracos da maconha já apagando uns arquivos da memória. Na faixa acima dos 30 anos as seqüelas são outras. Atacam o coração. A seqüela identifica a vítima de um cretino qualquer que prometeu mundos, fundos e uma viagem para os cafundós mais profundos onde ninguém interromperia a pressa de suas mãos e dentes. Foi o que ela entendeu e agora ei-la aqui. De quatro, feito a outra. Na véspera do Natal, na noite de aniversário, minutos depois de ter sido presenteado com uma caixa de DVDs dos Beatles, o cara não explicou muito bem o que estava acontecendo para aquele súbito tremor nos artelhos. Arriscou umas palavras vagas sobre a complexidade de se estabelecer um tempo comum entre eles. Parou no meio de uma frase sobre a falta de sintonia entre a ambição física e a correspondência dos sentidos. Olhou turvo para a mosca varejeira que passeava sobre a pia. Bateu a porta como se fosse ali no quiosque comprar flores. E foi. Para sempre. Nem se dignou ao aviso. Era a extrema-unção dos católicos, a saideira do Braca, o baile da cremação das tristezas dos carnavalescos, o último acorde para os melômanos, o trilar do apito para os boleiros. Bateu a porta e inaugurou no peito de mais uma muher a seqüela terçã que a tudo embaça e não deixa crer que amanhã, e nem mesmo depois do carnaval de satisfaction dos Rolling Stones, nunca mais será outro dia. Maldito o amor lhe seja.
(Joaquim Ferreira dos Santos)
Seqüelada. Haverá prazer maior do que uma palavra nova numa mulher das antigas? As letrinhas morrem de rir, a moça infelizmente não pára de chorar e de perguntar. O que aconteceu? Seqüelas doem. Por muito. Ligue seu aparelho estereofônico e escute as duas. Já teve a mulata que não está no mapa, o remédio que o doutor me receitou e tantas outras. Todas lindas. As certinhas do Lalau, as garotas do Alceu, as dez mais, as chacretes, as existencialistas com toda razão, as boazudas, as frenéticas, as sufraguetes, as marias chuteiras, as socialites, os brotos, as gatinhas, as cachorras e as eternas cinéfilas cubistas do Estação. Agora é a vez da mulher seqüelada, a mais triste. O trema é antigo, o sentido novo. O problema, coitadas, o mesmo de sempre. O medo, a quase certeza, de que neste momento existe outra tocando a pele dele e o enleio de ontem, o conluio da véspera, foi o último. O medo, a absoluta certeza de constatar que o amor é feito de mãos e dentes, o resto se desfaz na vaguitude dos espíritos, no desespero das saudades, na obsessão eterna, amém. A seqüelada não está no dicionário. Houaiss. Aurélio. Eles não sabiam ainda. Perderam este bonde semântico. Homens tradicionais, todos bem casados, não sabiam nada do pegapracapá amoroso. Nossos dicionaristas não tiveram o prazer. Pularam o verbete. Maysa era uma seqüelada quando cantava meu mundo caiu e me fez ficar assim. Estropiada. Desparagonada. Anarquizada. De quatro. Ela sofria. Dois imensos olhos não pacíficos chorando abandonos semestrais. Nora Ney, então, nem se fala. Ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de bem me quer. Hoje há cantoras ecléticas, seqüelada nenhuma se admite. Seqüelada, ouço-as maldizer, ficava a vovozinha. Não que seja praga-e-budapeste insuperáveis. Não lhes ria. Acontece um dia e a todas em sua hora de desespero o rótulo lhes caberá naquele esgar de sempre. Ali, na esquina do buço dourado com a covinha da bochecha. Todos saberão ou, os mais míopes, ouvirão que você não balbucia outra coisa. Ele. Sumiu. Volta? Há a mulher da vida, a Maria ninguém, a canhão, a hippie, a vai com as outras, a vizinha faladeira. A seqüelada já estava nas cavernas egípcias, nenhuma novidade no seu despudor sofrido. Os gregos, os portugueses, os fenícios, todos os homens em algum momento iam embora e deixavam a pobre coitada a perguntar para os amigos. Por quê? Disse que me queria. Rimou as mais doidas poesias. O amor é sentimento ou matéria? Dar ou receber? Por que o espírito é tão possessivo? Noventa por cento do tempo dela são dedicados a tentar entender o na maioria das vezes verbalmente inexplicável. Ele não ligou. Disse que vinha. A mulher seqüelada é isso que você já percebeu. Aquela que ficou traumatizada pela tristeza que Vinicius anunciava na canção. Se a vida é a arte do encontro por que tanto desencontro nessa vida. Eu encontrei uma seqüelada dias atrás e ela me foi sincera no pedido. Que eu a ajudasse a colocá-la no sono daquele certo homem e ele nunca mais dormisse em paz. Nunca mais acertasse o tom de uma música, nunca mais concordasse o verbo com o sujeito, nunca mais acertasse o foco e a luz de uma maldita foto. Que a seqüela atravessasse a rua, sem sinalizar seu novo rumo, e de surpresa, como o carcamano tinha feito com ela, como uma Pajero desgovernada, agora o atingisse — e eu amanhã publicasse no jornal a mais linda das notícias. Que os sinais vitais do indigitado, o seu orgulho de macho, a soberba dos que abandonam, já não estavam mais preservados. Havia se ido desta para uma pior e que a assombração de seu grito de orgasmo pairasse toda noite sobre aquela última a quem ele havia tocado a pele. Só assim ela, a seqüelada que me pede ajuda, se libertaria de reinventar todos os dias os olhos de desejos que ele, ainda anteontem pela manhã, debruçava sobre seu corpo. Só assim ela se livraria do gosto da hóstia consagrada que em seguida ele colocou, recitando o mantra lírico-safado dos amantes, em sua boca arfante. Ela queria mais, mais, mais, e agora sabia tudo em vão. A seqüelada é aquela que se espanta com a voz do corvo na orelha. Nunca mais. Nunca mais. Certas noites ela pede para que a igreja evangélica logo ao lado amplifique dez vezes os gritos de aleluia e lhe apague o corvo das orelhas. Mas o corvo também tem seu sistema de som e TV. Nunca mais é nunca mais. Fala mais alto. Maria Adelaide do Amaral, da minissérie “JK” me perguntou outro dia. Como se dizia lésbica nos anos 50, já que lésbica propriamente não se dizia nos anos dourados da repressão sexual. Cassandra Rios parece que carregava o estigma, nenhuma mais. Sexo não era essa alaúza de agora. Eu arrisquei paraíba e parece que alguém vai ser chamada assim na TV. Não vem ao caso. Seqüelada não tem nada a ver com isso. Pelo contrário. Ela gosta é dos homens, mas geralmente dos homens errados. Tem a ver com a paraíba, mulher macho, sim senhor, apenas porque os rótulos são cruéis e ajudam a entender em quatro sílabas as 500 páginas da odisséia de Ulisses. Entre os adolescentes, por exemplo, há uma seqüelada diferente. Para eles a seqüelada é apenas a mulher lerda, meio viajandona , que não entende bem as coisas. Sofre das idéias, os buracos da maconha já apagando uns arquivos da memória. Na faixa acima dos 30 anos as seqüelas são outras. Atacam o coração. A seqüela identifica a vítima de um cretino qualquer que prometeu mundos, fundos e uma viagem para os cafundós mais profundos onde ninguém interromperia a pressa de suas mãos e dentes. Foi o que ela entendeu e agora ei-la aqui. De quatro, feito a outra. Na véspera do Natal, na noite de aniversário, minutos depois de ter sido presenteado com uma caixa de DVDs dos Beatles, o cara não explicou muito bem o que estava acontecendo para aquele súbito tremor nos artelhos. Arriscou umas palavras vagas sobre a complexidade de se estabelecer um tempo comum entre eles. Parou no meio de uma frase sobre a falta de sintonia entre a ambição física e a correspondência dos sentidos. Olhou turvo para a mosca varejeira que passeava sobre a pia. Bateu a porta como se fosse ali no quiosque comprar flores. E foi. Para sempre. Nem se dignou ao aviso. Era a extrema-unção dos católicos, a saideira do Braca, o baile da cremação das tristezas dos carnavalescos, o último acorde para os melômanos, o trilar do apito para os boleiros. Bateu a porta e inaugurou no peito de mais uma muher a seqüela terçã que a tudo embaça e não deixa crer que amanhã, e nem mesmo depois do carnaval de satisfaction dos Rolling Stones, nunca mais será outro dia. Maldito o amor lhe seja.
(Joaquim Ferreira dos Santos)
segunda-feira, 24 de dezembro de 2007
Poema de Natal
(antes do poema, uma dica de um presente a se dar de Natal: assistir ao filme A Vida dos Outros. Emocionante.)
Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos –
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será a nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos –
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai –
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte –
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
Vinicius de Moraes
Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos –
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será a nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos –
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai –
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte –
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
Vinicius de Moraes
sábado, 22 de dezembro de 2007
O Velho, o Menino e o Burro
Iam um velho, um menino e um burro para a feira, os três andando bem devagar.
Passaram algumas pessoas e comentaram:
– Que gente boba!
Andando tanto, quando podiam ser levados pelo burro!
O velho, então, montou o menino no burro e foi ele mesmo puxando o cabresto.
Passaram outras pessoas e disseram:
– Que absurdo! Um velho tão velho andando e o menino no bem-bom!
O menino desmontou, o velho subiu e foi conduzindo o burro.
Outros passaram e disseram:
– Que horror!
Um menino tão pequeno andando
o velho descansando em cima do burro!
O velho, então, pôs o menino com ele em cima do burro, e lá foram eles para a feira.
Mas, pessoas que também iam pelo caminho resmungaram:
– Como tratam mal um burro magro!
Ter de levar tamanho peso!
O velho e o menino desceram do burro e
passaram a carregá-lo nas costas.
E aí, todos os que passavam riam deles e diziam
– Mas que burrice! Afinal, para que serve um burro?
Moral da história:
Quem quer agradar todo mundo no fim não agrada ninguém.
Passaram algumas pessoas e comentaram:
– Que gente boba!
Andando tanto, quando podiam ser levados pelo burro!
O velho, então, montou o menino no burro e foi ele mesmo puxando o cabresto.
Passaram outras pessoas e disseram:
– Que absurdo! Um velho tão velho andando e o menino no bem-bom!
O menino desmontou, o velho subiu e foi conduzindo o burro.
Outros passaram e disseram:
– Que horror!
Um menino tão pequeno andando
o velho descansando em cima do burro!
O velho, então, pôs o menino com ele em cima do burro, e lá foram eles para a feira.
Mas, pessoas que também iam pelo caminho resmungaram:
– Como tratam mal um burro magro!
Ter de levar tamanho peso!
O velho e o menino desceram do burro e
passaram a carregá-lo nas costas.
E aí, todos os que passavam riam deles e diziam
– Mas que burrice! Afinal, para que serve um burro?
Moral da história:
Quem quer agradar todo mundo no fim não agrada ninguém.
terça-feira, 18 de dezembro de 2007
Assim continuaram...
Levantou-se com certa dificuldade e, com as mãos trêmulas, abriu a gaveta da cômoda, ajeitando os achados que havia posto dentro da carteira sob um suéter de lã. Distraído, olhou no espelho, deparando-se com aquele vulto imberbe que se assemelhava a ele.
Aprontou-se com a presteza de sempre e desta vez trocou o nó Windsor da gravata por um cruzado. A camisa branca, combinando com as paredes, foi logo coberta pelo paletó escuro. Sentou-se outra vez à beira da cama para uma oração a Nossa Senhora das Estradas, e abriu a esmo a coletânea de Jose Asunción Silva, que, a seu ver, era parte da liturgia diária.
Desceu as escadas seguindo o rastro deixado pela ultima fornada de arepas, que seriam devoradas pelos filhos. Pensava em Gaitan, no Bogotazo, e como as coisas tinham melhorado; e também piorado. Estava doido para passar as férias em San Gil novamente. Sua mulher, Sara, arquétipo de uma tela de Botero, estava sentada com três das criancas à esquerda da cabeceira, derretendo queijo no chocolate quente. Não tinha muito tempo, era hora de ir ao Supremo, pensar nas sinecuras.
(Continuem!!!! Mandem história nos comentários...)
Aprontou-se com a presteza de sempre e desta vez trocou o nó Windsor da gravata por um cruzado. A camisa branca, combinando com as paredes, foi logo coberta pelo paletó escuro. Sentou-se outra vez à beira da cama para uma oração a Nossa Senhora das Estradas, e abriu a esmo a coletânea de Jose Asunción Silva, que, a seu ver, era parte da liturgia diária.
Desceu as escadas seguindo o rastro deixado pela ultima fornada de arepas, que seriam devoradas pelos filhos. Pensava em Gaitan, no Bogotazo, e como as coisas tinham melhorado; e também piorado. Estava doido para passar as férias em San Gil novamente. Sua mulher, Sara, arquétipo de uma tela de Botero, estava sentada com três das criancas à esquerda da cabeceira, derretendo queijo no chocolate quente. Não tinha muito tempo, era hora de ir ao Supremo, pensar nas sinecuras.
(Continuem!!!! Mandem história nos comentários...)
Assim comecei...
Eduardo Ronderos delirava, contando os segundos com piscadelas no quarto todo branco de cal. Não era febre, mas vergonha, uma ferida inflamada resultado da opressiva quase derrota imposta pelo seu último inimigo, o tempo. Estava paralisado, imóvel na grande cama de lençóis brancos, subjugado pelo poderoso adversário. Lembrou-se, entre micromomentos de calma escuridão, das palavras da centenária Úrsula. “O tempo não passa, ele gira em círculos”. E sorriu dentes amarelos em contraste com a saliva. Eu vou vencer!, ensurdeceu sua voz toda a estância na velha Santa Fé de Antioquia.
Esticou a mão e alcançou os pequenos papéis deixados na mesa ao lado da cama pela filha Clara, sua bênção, a mais bonita das quatro, a mais dedicada dos sete que vingaram. As imagens impressas de Santa Dinfna e Santo Pelegrino e uma foto de Clara, além dos dentes de Ronderos, quebravam a uniformidade branca e insana do quarto. Eram sua platéia bizarra.
Esticou a mão e alcançou os pequenos papéis deixados na mesa ao lado da cama pela filha Clara, sua bênção, a mais bonita das quatro, a mais dedicada dos sete que vingaram. As imagens impressas de Santa Dinfna e Santo Pelegrino e uma foto de Clara, além dos dentes de Ronderos, quebravam a uniformidade branca e insana do quarto. Eram sua platéia bizarra.
quarta-feira, 5 de dezembro de 2007
segunda-feira, 3 de dezembro de 2007
Incentivo é bom e eu gosto
Todos os dias acordo meio desistindo de escrever. Falta de tempo ou preguiça, depende. Fico enrolando, passo um tempo ausente e quando acho que o sem-saquismo será para sempre, uma palavra amiga escrita aqui e uma lembrança acolá fazem as palavras chegarem ao blogue.
Dessa vez, as responsáveis foram a Cris e a Guta, pelos elogios, e uma lágrima fujona. Eu me lembrei do início de tudo: uma dor de arrebentar a carcaça, de morder edredom para não soluçar, de rezar para morrer. Hiperbólico assim mesmo. Como a Guta definiu no seu Migrante Digital, foi um diário antienlouquecimento, conforme os textos saíam, o desespero era domesticado. A maioria das postagens foi para o arquivo porque não gosto de reler.
Hoje, porém, reli. Coisa de estado de espírito.
Dessa vez, as responsáveis foram a Cris e a Guta, pelos elogios, e uma lágrima fujona. Eu me lembrei do início de tudo: uma dor de arrebentar a carcaça, de morder edredom para não soluçar, de rezar para morrer. Hiperbólico assim mesmo. Como a Guta definiu no seu Migrante Digital, foi um diário antienlouquecimento, conforme os textos saíam, o desespero era domesticado. A maioria das postagens foi para o arquivo porque não gosto de reler.
Hoje, porém, reli. Coisa de estado de espírito.
sexta-feira, 23 de novembro de 2007
Carta do amor eterno
"Acordei de manhã e pensei em você. Óbvio. Dormi e pensei em você. Meu amor não acaba e tá dentro de mim. O oposto do medo é o amor. Dá pra ser feliz. Um beijo muito enorme pois você é uma pessoa amada pra caralho por mim. Meu coração não te esquece... não te esquece... não te esquece... E gosto desse amar, não me importam por agora as lacunas, ausências, essas coisas. Eu te amo."
Caldos na infância
O assunto era família na troca de e-mails. Na verdade, as mensagens falavam de pêlos e fios de lã que deixamos ou dos arranhões que guardamos quando passamos debaixo dos arames farpados das relações com nossos genitores. Lembrei-me do meu pai, carinhoso, porém adepto do "tem que crescer, tem que se virar".
Eu tinha 6 anos quando me mudei da Ilha para Copacabana. Na Ilha, entrávamos no mar tranqüilamente, pois não há ondas na Baía da Guanabara, exceto um dia ou outro no ano, quando a natureza faz umas marolas por lá.
Copacabana era forte para mim, sempre assustada. Pois meu pai entrou comigo e com o meu irmão no mar e de repente saiu fora e nos deixou lá. Fiquei meio desesperada olhando para ele na areia. Adhemar, dois anos mais velho, ao meu lado, batendo as perninhas para não se afogar, como eu. Então, decidimos que tínhamos que sair, porque meu pai não iria nos pegar, sabíamos.
Levei muito caldo, comi muita areia, mas aprendi a entrar no mar e sair.
Como um bicho que ensina as crias, meu pai mostrou o caminho e os perigos naquele dia e nunca mais repetiu a lição.
Eu tinha 6 anos quando me mudei da Ilha para Copacabana. Na Ilha, entrávamos no mar tranqüilamente, pois não há ondas na Baía da Guanabara, exceto um dia ou outro no ano, quando a natureza faz umas marolas por lá.
Copacabana era forte para mim, sempre assustada. Pois meu pai entrou comigo e com o meu irmão no mar e de repente saiu fora e nos deixou lá. Fiquei meio desesperada olhando para ele na areia. Adhemar, dois anos mais velho, ao meu lado, batendo as perninhas para não se afogar, como eu. Então, decidimos que tínhamos que sair, porque meu pai não iria nos pegar, sabíamos.
Levei muito caldo, comi muita areia, mas aprendi a entrar no mar e sair.
Como um bicho que ensina as crias, meu pai mostrou o caminho e os perigos naquele dia e nunca mais repetiu a lição.
quinta-feira, 22 de novembro de 2007
Noite de brincadeira
A dupla já desceu do táxi rindo: "Uh, uh, vamo invadir!". Uma porta de ferro trancada, um porteiro eletrônico e uma longa escada eram os obstáculos a transpor para a vitória. O objetivo naquela noite era penetrar na festa. Num primeiro momento, imaginou-se que a aventura seria acobertada pela penumbra dos furdunços noturnos. Mas da calçada já dava para antever o mico. Tudo estava muito claro atrás daquela porta vermelha. Aproveitando uma suposta convidada que chegava, a dupla postou-se à entrada.
- Não voltou subir, não. Vocês podem interfonar.
Entreolharam-se. E agora? Interfonaram.
- É Ana, Lúcia e Claudia. Pode escolher.
Grudadinhas, quase de mãos dadas, como pequenos irmãos assustados, subiram sem respirar. Uma cara desconhecida, é óbvio, as esperava lá no alto. Tudo muito claro. Holofotes acesos como aqueles de filmes antigos que detectam fugas de penitenciárias.
- Ele está naquela sala, podem ir lá.
A dupla se embrenhou para uma sala contígua, vazia, para esconder a cabeça como avestruz e ficar ali até morrer de vergonha.
- Não, naquela outra, ele está lá. Podem ir.
As ordens foram plenamente acatadas pelas crianças travessas e apenas adiaram os planos imediatos de suicídio. Ai, meus sais.
- Entra lá, você que é amiga de Orkut.
- Não sou, não.
- Como????? Não é??? E o que a gente está fazendo aqui. Além de não sermos convidadas, nem conhecemos o aniversariante que vamos ter que cumprimentar e dar beijinho agora??? Vou voltar. Vou dizer que a gente errou de porta, que estava procurando a livraria e se perdeu.
- Não, vamos lá, mas vai você na frente.
Que roubada. Não dava mesmo para recuar, éramos observadas.
Com o milagre da transmutação do sangue em adrenalina, entramos. Quatro, apenas quatro convidados.
(CONTINUA...)
- Não voltou subir, não. Vocês podem interfonar.
Entreolharam-se. E agora? Interfonaram.
- É Ana, Lúcia e Claudia. Pode escolher.
Grudadinhas, quase de mãos dadas, como pequenos irmãos assustados, subiram sem respirar. Uma cara desconhecida, é óbvio, as esperava lá no alto. Tudo muito claro. Holofotes acesos como aqueles de filmes antigos que detectam fugas de penitenciárias.
- Ele está naquela sala, podem ir lá.
A dupla se embrenhou para uma sala contígua, vazia, para esconder a cabeça como avestruz e ficar ali até morrer de vergonha.
- Não, naquela outra, ele está lá. Podem ir.
As ordens foram plenamente acatadas pelas crianças travessas e apenas adiaram os planos imediatos de suicídio. Ai, meus sais.
- Entra lá, você que é amiga de Orkut.
- Não sou, não.
- Como????? Não é??? E o que a gente está fazendo aqui. Além de não sermos convidadas, nem conhecemos o aniversariante que vamos ter que cumprimentar e dar beijinho agora??? Vou voltar. Vou dizer que a gente errou de porta, que estava procurando a livraria e se perdeu.
- Não, vamos lá, mas vai você na frente.
Que roubada. Não dava mesmo para recuar, éramos observadas.
Com o milagre da transmutação do sangue em adrenalina, entramos. Quatro, apenas quatro convidados.
(CONTINUA...)
sábado, 17 de novembro de 2007
Só 10%????
Algumas mulheres (10%), próximo orgasmo, expelem uma secreção como os homens. É um líquido claro, às vezes leitoso, ralo e geralmente inodoro. Isso, geralmente, é observado em mulheres que estejam muito excitadas, apresentem múltiplos orgasmos ou aquelas que atingem o clímax através da estimulação vaginal. A secreção ejaculada pode ter de 15 a 200 mililitros e é produzida pelas glândulas parauretrais, que ficam ao lado da uretra e não são visíveis.
terça-feira, 13 de novembro de 2007
Mudei
De tanto te pensar, me veio a ilusão.
A mesma ilusão
Da égua que sorve a água pensando sorver a lua.
De te pensar me deito nas aguadas
E acredito luzir e estar atada
Ao fulgor do costado de um negro cavalo de cem luas.
De te sonhar, tenho nada,
Mas acredito em mim o ouro e o mundo.
De te amar, possuída de ossos e abismos
Acredito ter carne e vadiar
Ao redor dos teus cismos. De nunca te tocar
Tocando os outros
Acredito ter mãos, acredito ter boca
Quando só tenho patas e focinho.
De muito desejar altura e eternidade
Me vem a fantasia de que Existo e Sou.
Quando sou nada: égua fantasmagórica
Sorvendo a lua n'água.
(Hilda Hilst)
A mesma ilusão
Da égua que sorve a água pensando sorver a lua.
De te pensar me deito nas aguadas
E acredito luzir e estar atada
Ao fulgor do costado de um negro cavalo de cem luas.
De te sonhar, tenho nada,
Mas acredito em mim o ouro e o mundo.
De te amar, possuída de ossos e abismos
Acredito ter carne e vadiar
Ao redor dos teus cismos. De nunca te tocar
Tocando os outros
Acredito ter mãos, acredito ter boca
Quando só tenho patas e focinho.
De muito desejar altura e eternidade
Me vem a fantasia de que Existo e Sou.
Quando sou nada: égua fantasmagórica
Sorvendo a lua n'água.
(Hilda Hilst)
quarta-feira, 7 de novembro de 2007
Maggie foi cobrada pela Patrícia Evans
I'm an Emotional Idiot
so get away from me.
I mean,
COME HERE.
Wait, no,
that's too close,
give me some space
it's a big country,
there's plenty of room,
don't sit so close to me.
Hey, where are you?
I haven't seen you in days.
Whadya, having an affair?
Who is she?
Come on,
aren't I enough for you?
God,
You're so cold.
I never know what you're thinking.
You're not very affectionate.
I mean,
you're clinging to me,
DON'T TOUCH ME,
what am I, your fucking cat?
Don't rub me like that.
Don't you have anything better to do
than sit there fawning over me?
Don't you have any interests?
Hobbies?
Sailing Fly fishing
Archeology?
There's an archeology expedition leaving tomorrow
why don't you go?
I'll loan you the money,
my money is your money.
my life is your life
my soul is yours
without you I'm nothing.
Move in with me
we'll get a studio apartment together, save on rent,
well, wait, I mean, a one bedroom,
so we don't get in each other's hair or anything
or, well,
maybe a two bedroom
I'll have my own bedroom,
it's nothing personal
I just need to be alone sometimes,
you do understand,
don't you?
Hey, why are you acting distant?
Where you goin',
was it something I said?
What
What did I do?
I'm an emotional idiot
so get away from me
I mean,
MARRY ME.
so get away from me.
I mean,
COME HERE.
Wait, no,
that's too close,
give me some space
it's a big country,
there's plenty of room,
don't sit so close to me.
Hey, where are you?
I haven't seen you in days.
Whadya, having an affair?
Who is she?
Come on,
aren't I enough for you?
God,
You're so cold.
I never know what you're thinking.
You're not very affectionate.
I mean,
you're clinging to me,
DON'T TOUCH ME,
what am I, your fucking cat?
Don't rub me like that.
Don't you have anything better to do
than sit there fawning over me?
Don't you have any interests?
Hobbies?
Sailing Fly fishing
Archeology?
There's an archeology expedition leaving tomorrow
why don't you go?
I'll loan you the money,
my money is your money.
my life is your life
my soul is yours
without you I'm nothing.
Move in with me
we'll get a studio apartment together, save on rent,
well, wait, I mean, a one bedroom,
so we don't get in each other's hair or anything
or, well,
maybe a two bedroom
I'll have my own bedroom,
it's nothing personal
I just need to be alone sometimes,
you do understand,
don't you?
Hey, why are you acting distant?
Where you goin',
was it something I said?
What
What did I do?
I'm an emotional idiot
so get away from me
I mean,
MARRY ME.
domingo, 4 de novembro de 2007
Volta para o mar, oferenda!
A casa do Gláuber é daquelas que nos fazem sentir bem. Pelo grande terraço que ventila e refresca, pelas excelentes músicas do anfitrião-DJ, pela comidinha gostosa que só ele prepara para receber seus convidados, pelas boas conversas inteligentes sem pedantismo, pelas imprescindíveis gargalhadas, pelas anunciadas bebedeiras, pelo carinho do dono. Por tudo isso e pelo que não consigo traduzir, é quase impossível recusar um convite para ir lá, onde já participei de uma das mais memoráveis festas da vida com apenas seis pessoas.
Da cabeça encaracolada do Gláuber saíram idéias geniais como a "Coelhada de Páscoa", que ele mesmo cozinhava no terraço, uma tradição que se foi com a Dani, a mulher que enchia as escadas de colchonetes para fazer um grande tobogã, onde escorregava com nossas crianças. Depois do almoço, chocolates para todos e delírios só para os adultos.
A casa tinha piscina, mas deu infiltração e agora tem mais espaço e um chuveirão. Tudo é bom. Tudo é calculadamente agradável. Ir à casa do Gláuber significa levar idéias e sorrisos embora conosco. Ontem, conversando coisas tristes com a Anna José, ela soltou: "Ah, Ana, esquece, fala assim, ó: 'Volta para o mar, oferenda!'". É isso. A casa do Gláuber é um grande centro de triagem para retornos das oferendas ao mar.
Da cabeça encaracolada do Gláuber saíram idéias geniais como a "Coelhada de Páscoa", que ele mesmo cozinhava no terraço, uma tradição que se foi com a Dani, a mulher que enchia as escadas de colchonetes para fazer um grande tobogã, onde escorregava com nossas crianças. Depois do almoço, chocolates para todos e delírios só para os adultos.
A casa tinha piscina, mas deu infiltração e agora tem mais espaço e um chuveirão. Tudo é bom. Tudo é calculadamente agradável. Ir à casa do Gláuber significa levar idéias e sorrisos embora conosco. Ontem, conversando coisas tristes com a Anna José, ela soltou: "Ah, Ana, esquece, fala assim, ó: 'Volta para o mar, oferenda!'". É isso. A casa do Gláuber é um grande centro de triagem para retornos das oferendas ao mar.
sábado, 3 de novembro de 2007
Travequinha amada
Querida Cris (como Querido Diário),
sei que você não é espiritualista nem esotérica, mas tampouco veste o fardão do materialismo científico, o que lhe faz ter uma posição pertinente a respeito de fatos bobos desse nosso cotidiano que ora conto, ora guardo na preguiça amiga.
Hoje pensei muito em você, nas suas opiniões e na sua risada com o que vou narrar. Estou de plantão, leia-se trancafiada dentro de casa, vendo sites, escarafunchando jornais, cuidando de uma boa cobertura para o nascimento do segundo filho da Angélica - não se compadeça nem gaste sua verve falando do sistema capitalista que nos suga e destrói nossos sonhos, daqui a pouco vou ver os queridos na casa do Gláuber e isso me basta.
Bom, a rotina do plantão manda acordar cedo para comprar os jornais. Acordei quase que mais cedo que os jornaleiros e fiquei perambulando por Botafogo à espera de uma banca aberta com os jornais do Rio e de SP. Aproveitei para caminhar na praia e dei ainda um pulo na igreja, porque gosto de falar com as imagens. Segurei na mão de um lindo Cristo e saí de lá com aquele dom de "ver" em que você não acredita.
Na volta para a banca, carros estacionados, telefones celulares tocando sem parar, tumulto nas ruas à minha frente às sete e meia da manhã. Fiquei zonza. Tentei respirar, mas tiraram meu ar. Quis me escorar, mas não havia paredes nem chão. Pô, Silvona amiga, você diria, fumar um beque antes do café dá nisso, rapá. Não, sem beques, tô limpa. Flutuei na volta para casa, meninos, famílias inteiras ainda dormiam na calçada. Um garoto cheirava cola, olhou para o alto e me viu. Esticou a mão da garrafa com a droga dentro na minha direção, uma oferenda para mim. Tudo em câmera lenta. Torci muito para chegar logo em casa, eu chorava, e a casa chegou a mim. Mas o que você viu, mulher de Deus?, perguntaria a amiga escritora. Na verdade, nada e tudo. Nada do que eu não sabia e tudo que eu escondia do meu coração. Esse mundo dá pena, Cris, e eu estou cansada de lutar com os seus burgas, amiga.
sei que você não é espiritualista nem esotérica, mas tampouco veste o fardão do materialismo científico, o que lhe faz ter uma posição pertinente a respeito de fatos bobos desse nosso cotidiano que ora conto, ora guardo na preguiça amiga.
Hoje pensei muito em você, nas suas opiniões e na sua risada com o que vou narrar. Estou de plantão, leia-se trancafiada dentro de casa, vendo sites, escarafunchando jornais, cuidando de uma boa cobertura para o nascimento do segundo filho da Angélica - não se compadeça nem gaste sua verve falando do sistema capitalista que nos suga e destrói nossos sonhos, daqui a pouco vou ver os queridos na casa do Gláuber e isso me basta.
Bom, a rotina do plantão manda acordar cedo para comprar os jornais. Acordei quase que mais cedo que os jornaleiros e fiquei perambulando por Botafogo à espera de uma banca aberta com os jornais do Rio e de SP. Aproveitei para caminhar na praia e dei ainda um pulo na igreja, porque gosto de falar com as imagens. Segurei na mão de um lindo Cristo e saí de lá com aquele dom de "ver" em que você não acredita.
Na volta para a banca, carros estacionados, telefones celulares tocando sem parar, tumulto nas ruas à minha frente às sete e meia da manhã. Fiquei zonza. Tentei respirar, mas tiraram meu ar. Quis me escorar, mas não havia paredes nem chão. Pô, Silvona amiga, você diria, fumar um beque antes do café dá nisso, rapá. Não, sem beques, tô limpa. Flutuei na volta para casa, meninos, famílias inteiras ainda dormiam na calçada. Um garoto cheirava cola, olhou para o alto e me viu. Esticou a mão da garrafa com a droga dentro na minha direção, uma oferenda para mim. Tudo em câmera lenta. Torci muito para chegar logo em casa, eu chorava, e a casa chegou a mim. Mas o que você viu, mulher de Deus?, perguntaria a amiga escritora. Na verdade, nada e tudo. Nada do que eu não sabia e tudo que eu escondia do meu coração. Esse mundo dá pena, Cris, e eu estou cansada de lutar com os seus burgas, amiga.
segunda-feira, 1 de outubro de 2007
Ana Torrent

Ana Torrent é Cria Cuervos e O Espírito da Colméia. Ana é menina. Já foi mulher de Henrique VIII, mas antes teve pena do monstro do Frankenstein e acreditava ter o poder da vida e da morte das pessoas. Quando crianças sempre acreditamos nisso, que somos invencíveis, impossíveis, invisíveis.Eu voava quando tinha cinco anos. Na minha certeza de ser mais leve que o ar, me atirei muito de janelas, uma sorte ter morado em casa. Também me lancei muito da muretinha da praia da Freguesia, na Ilha do Governador. Não me lembro de cair de machucar nem de comer areia, não, então certamente voei muito pelo espaço aberto do meu grande mundo, onde viajar para mim era cruzar a ponte do Galeão para visitar minhas tias no Flamengo. Hoje, coragem não me falta de pular de qualquer lugar e ver o mundo do alto, fazer piruetas de braços abertos, mas sabe como é, estou mais pesada, sei lá. Vai que a imaginação se esgarce...
Outro dos meus poderes infantis era fazer as luzes dos túneis se acenderem. Achava incrível elas esperarem exatamente o momento em que eu passaria para iluminar a rota dos motoristas. E os outros que passaram em carros antes de mim? E os que passariam depois? Problema deles, que não me tinham no carro. Eu era importante. Uau. Então, um dia, descobri o decepcionante segredo das luzes: elas estavam sempre viradas na direção contrária à do sentido em que o carro ia. Crescer dói porque desencanta.
Mas eu ainda guardo alguns pequenos truques. Posso ser invisível. Juro. Ensinei o segredo a um único amigo, o Garambone. Uma vez, conversávamos no Belmonte e uma pesssoa que não queríamos que se sentasse conosco chegou. Ihhhh, resmungou meu amigo. Calma, basta dizer: invisível! Pois a momentaneamente indesejada criatura circulou pela nossa mesa, foi para dentro, para fora, passou de novo por nós e desistiu de nos procurar. Eu e Garamba nos olhamos surpresos e sorridentes. Algumas pessoas têm a capacidade de nos fazer poderosas novamente, seja na força, seja na imaginação. Essas são imprescindíveis na nossa vida.
A leitura dos pensamentos dos outros e a visão do futuro também são meu forte. Só que trazem, invariavelmente, tristeza. Por caridade a mim mesma, ou burrice, tento manter esse poder inativo, mas não adianta. Não podemos renegar nossos dons, são parte do que somos, como a carne, os ossos, o sangue.
segunda-feira, 24 de setembro de 2007
Jorge disse
"Entendo vc perfeitamente, viu...
Suspeito que os homens é que são de Vênus, levando as mulheres a Marte (guerra)..."
Salve, Jorge!
Obrigada pela sabedoria do comentário na postagem "Que dodói, que nada".
Suspeito que os homens é que são de Vênus, levando as mulheres a Marte (guerra)..."
Salve, Jorge!
Obrigada pela sabedoria do comentário na postagem "Que dodói, que nada".
domingo, 23 de setembro de 2007
quinta-feira, 13 de setembro de 2007
É COISA NOSSA (1925 -2007)
Historinha enviada:"Colega de trabalho de Pedro de Lara, Elke Maravilha define o humorista como "um sábio". "Lembro que estava triste após levar uma bronca do Silvio Santos, e o Pedro me disse: "Ah, Elke, tem gente que é tão pobre, mas tão pobre, que só tem dinheiro"."
“Na vida tem que ter estilo. Quem não tem não é isso nem aquilo”.
quinta-feira, 6 de setembro de 2007
O homem dodói (Joaquim Ferreira)
Ao homem dodói não dói o pâncreas nem qualquer osso do ilíaco. Não pergunte o mal que lhe aflige pois ele sequer sabe, não acreditaria, tão saudável, que acabou de ser catalogado entre os representantes desta nova espécie amorosa pela última namorada que não agüentou. Ela bateu a porta, jogou fora a chave e veio me relatar que havia mais um dodói solto machucando o coração das incautas. O dodói é o vilão passivo. Não bate na cara, não seqüela a pobre coitada, não maldiz aos palavrões o momento desgraçado em que tomou uma a mais, lixou-se para os cacófatos e carregou a vagabunda para a cama. É um sujeito bonzinho até, mas por omisso, eterna adolescência no jeito de tratar com as questões do amor, ele machuca mais que um kadu desses que andam espancando suas apaixonadas nos consultórios sentimentais dos jornais. O homem dodói, se você urge que a ficha caia rápido, é um deprimido que não sabe se quer, está em dúvida se cai dentro matando a pau, se joga tudo para o ar e muda a vida d e prumo para encarar, vento batendo de frente, uma nova relação. Foge da raia, mas não necessariamente diz. Não necessariamente trai, não necessariamente quer ir embora, não necessariamente faz questão de se fazer necessário. Se ele fosse um sinal gráfico de pontuação, seria uma linha com pontinhos de reticências. A doença, o tal dodói, lhe encaixa mais chocante porque pode ser até um sujeito bem resolvido profissionalmente. Tem o nome nos muros da cidade, na lista dos mais vendidos, uma postura agressiva no mercado de ações frias em que opera. Um sucesso no público, um fracasso no apartamento. Não cresceu. Como não dá qualquer sinal de que crescerá, tenha cuidado ao escrever sobre a figura. Homem dodói, com agá maiúsculo, mesmo no início da frase, não existe. Ele é minúsculo. Mixuruca. Antônio Maria, o mais eloqüente dos cantores das nossas desconexões amorosas, tinha uma cardiopatia conhecida como coração inchado. Morreu disso, graças a Deus viveu disso também e deixou textos magní ficos sobre os que decidem ir com tudo no cassino afetivo. “Quem seria capaz de abrir o peito e mostrar a ferida?”, escreveu certa vez no jornal, ele mesmo destroçado pela exibição da dor que lhe corroia a alma. O dodói está fora de uma cena dessas. Não rasga o peito, não põe fogo às vestes nem rola seu despudor franco pela ribanceira. Tem medo, entre outros, de morrer enfartado, abandonado por alguma mulher, três e quinze, na madrugada de uma calçada de Copacabana. Não é o homem acabado pela dor filha-da-mãe da angústia profunda de uma saudade. Não arrasta qualquer melancolia que o faça arrancar com cera quente os pêlos grudados nas bordas do coração. Nada disso. Ele é dodói apenas. O eterno garoto que esfrega mertiolate nas perebas de sua incapacidade de se relacionar, que joga pó de sulfa no furúnculo de sua falta de vontade em finalmente crescer e dizer estou dentro, vamos nessa. Juntos. O dodói trata com mercurocromo a depressão. Acha que basta. Depois assopra e se diz, baixinho , “passou, passou”. Contra os males da covardia, balas de permanganato. Já tem mais de 30 anos, barba na cara, grana no bolso. Ao contrário dos adolescentes acima dos 25 que não desgrudam da casa dos pais, o dodói saiu de casa mas não deixa que saia dele a casinha-lego onde trancou os sentimentos. Pode até escrever profissionalmente para jornais e publicidade, mas não consegue redigir uma linha da carta de compromissos que o consolidará namorado, marido, amante, ou o mais que seja de aposta na vida dela. Aplica todos os verbos no tempo do talvez, na conjugação do quem sabe. Por mais carioca que esteja, não teme a bala perdida, nem ser atropelado por uma bicicleta na calçada. O dodói escorregadio foge é do pé na bunda, esse aprendizado fundamental na vida de qualquer macho, o momento decisivo em que os homens se separam dos meninos — ou não. Ele não sacode, não sai de cima, não tem ciúme, não tem vontade de jogar um copo de cerveja quente na cara da traíra fria, não disputa o amor imp ossível, não sente falta de ar na presença de ninguém, e se você pergunta por uma decisão, ele responde que, bem, desculpa, está confuso. O dodói pede desculpas à mulher o tempo todo. Não foi por mal, não foi por bem, e jura que a quer feliz, só não pode, desculpa, ajudar. É o homem estragado pela insustentável leveza de ser dos romances modernos. Dodói não lê Tolstói, por profundo demais. Só quer das rimas as que não estejam em “El dia que me quieras”. Nada de versos sobre paixões arrebatadas em que o amor viril de um homem por uma mulher possa soar como aventura e trazer conseqüências fora de controle. Quer distância das cicatrizes, das navalhadas, das cartas anônimas, das loucas passionais, do telefone tocando mudo na madrugada, do coração aos pulos, do formicida com guaraná ou de qualquer um desses boleros fora do hype da voga cool Os riscos do amor estão por fora da nova ordem mundial — e o dodói pede desculpas por ser tão frágil. Promete deixar a sua vítima em paz, mas de vez em quando aparece e ronda a infeliz. Por nada. Só quer ver como anda o dodói que provoca na alma alheia.
terça-feira, 4 de setembro de 2007
segunda-feira, 3 de setembro de 2007
sábado, 1 de setembro de 2007
Um brinde às cariocas em SP
E minha homenagem a Guta, a primeira à direita, pelas palavras carinhosas (todas nós reinamos no coração daqueles moços da ECO, mas Guta foi uma das grandes musas) em seu blog migrantedigital.blogspot.comInternautas, para se atualizarem, passeiem por lá.
quinta-feira, 30 de agosto de 2007
Os silêncios da fala (pelo meu aniversário)
São tantos
os silêncios da fala
De sede
De saliva
De suor
Silêncios de silex
no corpo do silêncio
Silêncios de vento
de mar
e de torpor
De amor
Depois, há as jarras
com rosas de silêncio
Os gemidos
nas camas
As ancas
O sabor
O silêncio que posto
em cima do silêncio
usurpa do silêncio o seu magro labor.
(Maria Teresa Horta)
segunda-feira, 27 de agosto de 2007
Do Grande e do Pequeno Amor
«O meu amor por ti, às vezes, não é mais do que uma ruína, uma ruína onde estremeço de frio. Mas prefiro estremecer por causa de ti do que procurar outra paisagem.»
«Andas a dormir com alguém?»
«Já não, encontro-te sempre, até nos corpos das outras me farto de ti, o meu amor por ti é tão banal e absoluto que está em todos os corpos, entendes?»
«Perfeitamente. Como é que vamos resolver isto?»
«Porque é que temos de resolver isto? Talvez este amor, esta coisa nossa, seja uma guerra como essas que tu estudas, infinitas, com o sangue e a paz entremeados. E páginas em branco.»
«Somos os dois muito maus na questão das páginas em branco. Se reparares bem é isso.»
«Talvez eu não goste de reparar bem. Acho até que é por isso que preciso de ti; para me irritar contigo porque reparas sempre em tudo o que me escapa.»
«Achas que ainda teremos medo de viver juntos daqui a vinte anos?»
«Não sei. Sei que nos arrependeremos se não tentarmos. Mas não consigo perder o medo.»
«Não tens de perder o medo. O medo faz parte do que somos os dois.»
«Nunca te esqueces de mim quando tens prazer com outras pessoas?»
«Não, e aí está uma coisa difícil de te perdoar.»
(Inês Pedrosa e Jorge Colombo)
«Andas a dormir com alguém?»
«Já não, encontro-te sempre, até nos corpos das outras me farto de ti, o meu amor por ti é tão banal e absoluto que está em todos os corpos, entendes?»
«Perfeitamente. Como é que vamos resolver isto?»
«Porque é que temos de resolver isto? Talvez este amor, esta coisa nossa, seja uma guerra como essas que tu estudas, infinitas, com o sangue e a paz entremeados. E páginas em branco.»
«Somos os dois muito maus na questão das páginas em branco. Se reparares bem é isso.»
«Talvez eu não goste de reparar bem. Acho até que é por isso que preciso de ti; para me irritar contigo porque reparas sempre em tudo o que me escapa.»
«Achas que ainda teremos medo de viver juntos daqui a vinte anos?»
«Não sei. Sei que nos arrependeremos se não tentarmos. Mas não consigo perder o medo.»
«Não tens de perder o medo. O medo faz parte do que somos os dois.»
«Nunca te esqueces de mim quando tens prazer com outras pessoas?»
«Não, e aí está uma coisa difícil de te perdoar.»
(Inês Pedrosa e Jorge Colombo)
O não-amor
Às vezes me pego cheia de pudores para escrever coisas sobre sentimentos, apesar de este blogue ter começado como o diário das 1.200 horas para me curar de um pancadão na cabeça, no tronco e nos membros. A maioria desse tempo foi parar no rascunho, porque ninguém merece chororô alheio, mas ainda há muitos minutos espalhados por aqui de tristeza e emoção. E nessas coisas de ter vergonha de escrever, mas não ter de falar, surgiu a expressão "não-amor" na conversa em um skype capenga. O não-amor é o amor micareta, fora de época, dos senões, dos desencontros. Um ama e o outro, também. Só que não da mesma forma. Um ama para namorar e o outro, para admirar. Um ama já, o outro tem que descasar. Um quer ir para o motel, o outro prefere passar o tempo em conversas e gargalhadas amigas. Um adora viajar e o outro só pode ficar.
O não-amor não vira a página e o seguir adiante é sempre olhando para trás, com preocupação e raiva das não-realizações quando tudo poderia ser perfeito. Por isso, você purga suas lembranças dobradas, amareladas, guardadas dentro de caixas ilusórias de papelão ou de entrada de mensagens - elas ficarão lá para sempre porque não houve nem haverá motivos para eliminá-las. É quase o "amor contrariado" do García Márquez. Quase. Para ser, precisava provocar sobressaltos, e não tristeza e pena.
segunda-feira, 20 de agosto de 2007
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