Se me fossem dados desejos, além de voar e teletransportar, eu queria conhecer o tal do meu superego, essa criatura assustadora onipresente, onisciente, oniapqp. Pintam horrores dos superegos alheios. Dizem que, se deixarem o bicho solto, o caminho é a morte, o prazer total. A coisa é poderosa. Mas a história é outra.
Do mesmo jeito que um dia acordei e vi o Gerson King Combo na minha frente - ele saiu da noite para me dar bom dia -, hoje fui parar em sonho dentro do blogue de blagues de um conhecido. Estava lá na minha cabeça como título de um post: "Eubiose". Sim, sabia que existia uma sociedade disso aí, mas nem sabia o que significava e muito menos entendi por que a criatura superego associou a palavra ao blogue e ao conhecido. Resolvi investigar. Está lá no Google:
Frase: "SPES MESSIS IN SEMINE (A ESPERANÇA DA COLHEITA RESIDE NA SEMENTE)". Hmmm... Não entendi.
Fui além na wikipédia: "É uma palavra criada pelo teósofo brasileiro Henrique José de Souza, a partir das raízes gregas Eu (eús, eú, bom, bem), bio (bios, vida) e -ose (osis, processo, ação, condição). Eubiose, portanto, significa: ação, processo ou condição de bem viver. "
Ah, tá. Mas que diabos eubiose tem a ver com as blagues? Foi uma mensagem subliminar? Valei-me, São Freud.
sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008
Ajuda teu irmão que Deus vai te ajudar

Ele parecia o modelo de Portinari para pintar O Lavrador de Café. Os pés no chinelo velhíssimo eram enormes, desproporcionais. Quando olhei, vi que rezava com fervor diante de um quadro de Santo Antônio. Ele percebeu. Virou-se para mim e me mostrou o braço machucado. "Toma, moça", disse, entregando-me um santinho de São Judas Tadeu. Logo o meu "seu Judas", poderoso com os rubro-negros e com os que querem soluções para casos impossíveis. "Reza por mim, que tô fazendo hemodiálise. Ajuda teu irmão que Deus vai te ajudar"", disse triste. Naquele momento, naquele convento, a frase ecoou. E rebateu no coração. Haviam acabado de me negar a mão, eu estava com febre, nauseada, insone, uma zumbi sem mato. Ajuda teu irmão. Abracei aquele irmão em pensamento, solidária na miséria, igual no abandono, enquanto o via se afastar, seguido por uma mosca, para se postar diante da cruz.
terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
Um dia Antônio Maria total
"Às vezes, me sinto muito só. Sem ontem e sem amanhã. Não adianta que haja pessoas em volta de mim. Mesmo as mais queridas. Só se está só ou acompanhado, dentro de si mesmo. Estou muito só hoje. Duas ou três lembranças que me fizeram companhia, desde segunda-feira, eu já gastei. Não creio que, amanhã, aconteça alguma coisa de melhor."
Oração - Antônio Maria (1954)
"Rosinha Desossée, me tire desse quarto de hotel e de todas as coisas que entram pela janela; me leve para longe das palmeiras, mais longe e perto das coisas mais macias; me faça esquecer (depressa) os homens ruins — isto é: os que gostam de cebola crua; me ensine, Rosinha Desossée, tudo o que eu não aprendi: a cortar com a mão direita, a usar anel, a tocar piano, a desenhar uma árvore e valsar; e me lembre do que eu esqueci — raiz quadrada, (as mais ordinárias), frações, latim, geofísica e "Navio Negreiro", de Castro Alves; depois, me dê, pelo bem dos seus filhinhos, aquilo que eu não tenho há quase um ano, carinho — de um jeito que eu não sei dizer como é, mas que há, por aí ou, pelo menos, já houve; destelhe a casa, deixe a noite entrar e, juntos, vamos nos resfriar; espirre de lá, que eu espirro de cá... agora, cada um com a sua bombinha, inalação, inalação; lado a lado, sentemos, os dois de perfil para o ventilador; minhas mãos e as suas não são de ninguém, entendido?; se interesse por mim e pergunte o que eu sei, que eu quero exclamar, no mais puro francês: "oh!"..."comment allez vous"? (...) de um jeito ou de outro, me tire daqui, pra Pérsia, Sibéria, pro Clube da Chave, pra Marte, Inglaterra, sem couvert, sem couvert; está vendo o retrato dos meus 20 anos? de lá para cá, cansaço, pé chato, gordura, calvície fizeram de mim essa coisa ansiosa, insegura e com sono, que pede a você, no auge do manso: você, Desossée, não saia esta noite e fique, ao meu lado, esperando que o sono me tome e me mate, me salve e me leve, por amor ao teu andar, assim seja..."
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
Pensata
Fui criada dando valor às palavras. Primeiro queria empregá-las certo. Depois, escrevê-las corretamente. Aprendi que uma pode ter vários significados, então comecei a brincar com elas, divertir-me. Meu pai ensinou-me a profundidade que podem ter, trazendo alegria, machucando, fazendo o interlocutor de bobo. Por isso, orientou-me a não mentir. Ouvi atentamente as palavras dele, como ouço as de todos, até porque são meu ganha-pão. E analisando meu amor às letras que se unem para formar nomes e significados de qualquer coisa ou sentimento penso em como essa vida seria melhor se houvesse um apego ao que se diz ou escreve sem estar com cabeça quente. Imagine o paraíso: discursos de campanhas cumpridos e um mundo só de seres preocupados em levar a sério expressões como "não vou ferir você nem magoar", "acredite em mim", "conte comigo", "pago assim que receber" e tantas, tantas mais.
Quem joga palavras ao léu e diz que é coisa de momento assina embaixo de (des)enganos. É melhor pensar duas vezes antes de reclamar quando se sentir lesado.
Quem joga palavras ao léu e diz que é coisa de momento assina embaixo de (des)enganos. É melhor pensar duas vezes antes de reclamar quando se sentir lesado.
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008
Foi um rio que passou em minha vida...
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
Me beija que não sou cineasta, mas poeta
Chegou no bloco e na bucha e me recitou um poema ao pé do ouvido no Baixo Gávea. "Hmmmm... é assim, assim", eu disse. "Mas fiz para o bloco, sou poeta. Você não gostou?", perguntou-me Chacal. "Sei que é poeta. Já li coisas melhores suas", fui sincera. "Então deixa eu dizer outro: 'Quero que você me beije e a quaresma me deixe.'" "Não. Não gostei". Levei um tapa de brincadeira na mão com a força descontrolada dos ébrios, antes do afago de desculpas. Tudo certo, Chacal, colou com outras e outros que respiram. Neste momento, faço meu seu verso: quero que a quaresma me deixe.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008
Do Cadu
VÃOS ENTRE OS DEDOS
Entre os dedos das mãos
Vão-se os anéis
Ficam os medos
Gestos presos
Vãos entre os dedos
No entrelace das mãos
Os gestos são grãos
Escorrendo
nas frestas dos dedos
Entre a boca e a orelha
o vão é da língua
O hálito quente
transmite o segredo
A mordida o dente
A saliva a centelha
No ar a resposta
No segredo a proposta
Teus vãos,
Como é bom preenchê-los!
Percorrer teus relevos
Morder os teus lábios
Cheirar teus cabelos
Cafunés sem anéis
P'ra que quero anéis
Vamos entrelaçar mãos
Pensar que os medos
Vão-se entre os dedos
Entre os dedos das mãos
Vão-se os anéis
Ficam os medos
Gestos presos
Vãos entre os dedos
No entrelace das mãos
Os gestos são grãos
Escorrendo
nas frestas dos dedos
Entre a boca e a orelha
o vão é da língua
O hálito quente
transmite o segredo
A mordida o dente
A saliva a centelha
No ar a resposta
No segredo a proposta
Teus vãos,
Como é bom preenchê-los!
Percorrer teus relevos
Morder os teus lábios
Cheirar teus cabelos
Cafunés sem anéis
P'ra que quero anéis
Vamos entrelaçar mãos
Pensar que os medos
Vão-se entre os dedos
terça-feira, 5 de fevereiro de 2008
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008
O-cultismo
Glamour, por mais que pareça francês, tem origem anglo-saxônica. Só para quem quiser aprender:
Glamour: 1720, "magic, enchantment" (especially in phrase to cast the glamour), a variant of Scot. gramarye "magic, enchantment, spell," alt. of Eng. grammar (q.v.) with a medieval sense of "any sort of scholarship, especially occult learning." Popularized by the writings of Sir Walter Scott (1771-1832). Sense of "magical beauty, alluring charm" first recorded 1840. Glamorous is 1882 (slang shortening glam first attested 1936); glamorize is 1936.
Glamour: 1720, "magic, enchantment" (especially in phrase to cast the glamour), a variant of Scot. gramarye "magic, enchantment, spell," alt. of Eng. grammar (q.v.) with a medieval sense of "any sort of scholarship, especially occult learning." Popularized by the writings of Sir Walter Scott (1771-1832). Sense of "magical beauty, alluring charm" first recorded 1840. Glamorous is 1882 (slang shortening glam first attested 1936); glamorize is 1936.
terça-feira, 29 de janeiro de 2008
Reverência ao destino
Falar é completamente fácil, quando se tem palavras em mente que expressem sua opinião.
Difícil é expressar por gestos e atitudes o que realmente queremos dizer, o quanto queremos dizer, antes que a pessoa se vá.
Fácil é julgar pessoas que estão sendo expostas pelas circunstâncias.
Difícil é encontrar e refletir sobre os seus erros, ou tentar fazer diferente algo que já fez muito errado.
Fácil é ser colega, fazer companhia a alguém, dizer o que ele deseja ouvir.
Difícil é ser amigo para todas as horas e dizer sempre a verdade quando for preciso.
E com confiança no que diz.
Fácil é analisar a situação alheia e poder aconselhar sobre esta situação.
Difícil é vivenciar esta situação e saber o que fazer ou ter coragem pra fazer.
Fácil é demonstrar raiva e impaciência quando algo o deixa irritado.
Difícil é expressar o seu amor a alguém que realmente te conhece, te respeita e te entende.
E é assim que perdemos pessoas especiais.
Fácil é mentir aos quatro ventos o que tentamos camuflar.
Difícil é mentir para o nosso coração.
Fácil é ver o que queremos enxergar.
Difícil é saber que nos iludimos com o que achávamos ter visto.
Admitir que nos deixamos levar, mais uma vez, isso é difícil.
Fácil é dizer "oi" ou "como vai?"
Difícil é dizer "adeus", principalmente quando somos culpados pela partida de alguém de nossas vidas...
Fácil é abraçar, apertar as mãos, beijar de olhos fechados.
Difícil é sentir a energia que é transmitida.
Aquela que toma conta do corpo como uma corrente elétrica quando tocamos a pessoa certa.
Fácil é querer ser amado.
Difícil é amar completamente só.
Amar de verdade, sem ter medo de viver, sem ter medo do depois. Amar e se entregar, e aprender a dar valor somente a quem te ama.
Fácil é ouvir a música que toca.
Difícil é ouvir a sua consciência, acenando o tempo todo, mostrando nossas escolhas erradas.
Fácil é ditar regras.
Difícil é seguí-las.
Ter a noção exata de nossas próprias vidas, ao invés de ter noção das vidas dos outros.
Fácil é perguntar o que deseja saber.
Difícil é estar preparado para escutar esta resposta ou querer entender a resposta.
Fácil é chorar ou sorrir quando der vontade.
Difícil é sorrir com vontade de chorar ou chorar de rir, de alegria.
Fácil é dar um beijo.
Difícil é entregar a alma, sinceramente, por inteiro.
Fácil é sair com várias pessoas ao longo da vida.
Difícil é entender que pouquíssimas delas vão te aceitar como você é e te fazer feliz por inteiro.
Fácil é ocupar um lugar na caderneta telefônica.
Difícil é ocupar o coração de alguém, saber que se é realmente amado.
Fácil é sonhar todas as noites.
Difícil é lutar por um sonho.
Eterno, é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade, que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata.
(Drummond)
Difícil é expressar por gestos e atitudes o que realmente queremos dizer, o quanto queremos dizer, antes que a pessoa se vá.
Fácil é julgar pessoas que estão sendo expostas pelas circunstâncias.
Difícil é encontrar e refletir sobre os seus erros, ou tentar fazer diferente algo que já fez muito errado.
Fácil é ser colega, fazer companhia a alguém, dizer o que ele deseja ouvir.
Difícil é ser amigo para todas as horas e dizer sempre a verdade quando for preciso.
E com confiança no que diz.
Fácil é analisar a situação alheia e poder aconselhar sobre esta situação.
Difícil é vivenciar esta situação e saber o que fazer ou ter coragem pra fazer.
Fácil é demonstrar raiva e impaciência quando algo o deixa irritado.
Difícil é expressar o seu amor a alguém que realmente te conhece, te respeita e te entende.
E é assim que perdemos pessoas especiais.
Fácil é mentir aos quatro ventos o que tentamos camuflar.
Difícil é mentir para o nosso coração.
Fácil é ver o que queremos enxergar.
Difícil é saber que nos iludimos com o que achávamos ter visto.
Admitir que nos deixamos levar, mais uma vez, isso é difícil.
Fácil é dizer "oi" ou "como vai?"
Difícil é dizer "adeus", principalmente quando somos culpados pela partida de alguém de nossas vidas...
Fácil é abraçar, apertar as mãos, beijar de olhos fechados.
Difícil é sentir a energia que é transmitida.
Aquela que toma conta do corpo como uma corrente elétrica quando tocamos a pessoa certa.
Fácil é querer ser amado.
Difícil é amar completamente só.
Amar de verdade, sem ter medo de viver, sem ter medo do depois. Amar e se entregar, e aprender a dar valor somente a quem te ama.
Fácil é ouvir a música que toca.
Difícil é ouvir a sua consciência, acenando o tempo todo, mostrando nossas escolhas erradas.
Fácil é ditar regras.
Difícil é seguí-las.
Ter a noção exata de nossas próprias vidas, ao invés de ter noção das vidas dos outros.
Fácil é perguntar o que deseja saber.
Difícil é estar preparado para escutar esta resposta ou querer entender a resposta.
Fácil é chorar ou sorrir quando der vontade.
Difícil é sorrir com vontade de chorar ou chorar de rir, de alegria.
Fácil é dar um beijo.
Difícil é entregar a alma, sinceramente, por inteiro.
Fácil é sair com várias pessoas ao longo da vida.
Difícil é entender que pouquíssimas delas vão te aceitar como você é e te fazer feliz por inteiro.
Fácil é ocupar um lugar na caderneta telefônica.
Difícil é ocupar o coração de alguém, saber que se é realmente amado.
Fácil é sonhar todas as noites.
Difícil é lutar por um sonho.
Eterno, é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade, que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata.
(Drummond)
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
Alice não mora mais aqui
Ouço miados de gato no telhado
Subo devagar, cautela nas pernas
Firmeza sobre as telhas incertas.
Não há nada lá.
Nunca nada há.
Gatinho de Cheshire, deixa teu riso
Meu mundo é um toco oco
De chás e delírios que tremem.
Por que fazer chorar?
Chorar clareia o olhar?
Cansam-me todos os conflitos
Abandono-me à tua espera
Gato rosa da minha infância.
Vem, anjo, pra cá.
Alice deve tardar.
Subo devagar, cautela nas pernas
Firmeza sobre as telhas incertas.
Não há nada lá.
Nunca nada há.
Gatinho de Cheshire, deixa teu riso
Meu mundo é um toco oco
De chás e delírios que tremem.
Por que fazer chorar?
Chorar clareia o olhar?
Cansam-me todos os conflitos
Abandono-me à tua espera
Gato rosa da minha infância.
Vem, anjo, pra cá.
Alice deve tardar.
terça-feira, 8 de janeiro de 2008
Amar como ama o black (beans)
Foi estranho acordar lembrando de uma figuraça da década de 70. Gerson King Combo. Alguém lembra? Negão, óculos escuros, elegante que só. Ele me veio à cabeça com o incômodo da saudade. Adorava vê-lo dançar. Que James Brown que nada. Na saída da minha infância, eu vibrava mesmo era com Gerson King Combo.
O dia começou com as imagens vagas do negão sumido e se embrenhou total para a nostalgia. Sem empregada, resolvi cozinhar umas naturebices. Notei que havia uns grãos bem escurinhos e estranhos no feijão azuki. Fiquei lá catando os que iam para a panela. Minha avó e minha mãe "escolhiam" o arroz e o feijão. Nunca mais vi ninguém fazendo isso. As pessoas vão abandonando as tradições por pressa, solidão ou percepção desgostosa da inutilidade dos atos. "Escolher" feijão durava muitos minutos na minha casa. Os grãos eram remexidos para lá e para cá, um movimento que só acabava quando não havia mais o que falar sobre a vida dos outros na cozinha. Era uma terapia em grupo, a casa inteira reunida, olhos fixos no movimento e língua afiada. Às vezes, havia silêncio, mas os olhos permaneciam fixos no trabalho alheio. Quando isso acontecia, era em respeito às lágrimas da cozinheira que por algum tormento entristecera. A solidariedade se mantinha na presença muda. Agora só me falam de individualidade, sem olhar solidário, sem apoio amigo. Meditação em vez de catarse. Isso é o chique. O respeito é manter a distância, falar com o motorista somente o indispensável. Ai, que triste esse mundo que estamos construindo de bocas em que não entram mosquitos para termos histórias a contar.
O dia começou com as imagens vagas do negão sumido e se embrenhou total para a nostalgia. Sem empregada, resolvi cozinhar umas naturebices. Notei que havia uns grãos bem escurinhos e estranhos no feijão azuki. Fiquei lá catando os que iam para a panela. Minha avó e minha mãe "escolhiam" o arroz e o feijão. Nunca mais vi ninguém fazendo isso. As pessoas vão abandonando as tradições por pressa, solidão ou percepção desgostosa da inutilidade dos atos. "Escolher" feijão durava muitos minutos na minha casa. Os grãos eram remexidos para lá e para cá, um movimento que só acabava quando não havia mais o que falar sobre a vida dos outros na cozinha. Era uma terapia em grupo, a casa inteira reunida, olhos fixos no movimento e língua afiada. Às vezes, havia silêncio, mas os olhos permaneciam fixos no trabalho alheio. Quando isso acontecia, era em respeito às lágrimas da cozinheira que por algum tormento entristecera. A solidariedade se mantinha na presença muda. Agora só me falam de individualidade, sem olhar solidário, sem apoio amigo. Meditação em vez de catarse. Isso é o chique. O respeito é manter a distância, falar com o motorista somente o indispensável. Ai, que triste esse mundo que estamos construindo de bocas em que não entram mosquitos para termos histórias a contar.
domingo, 6 de janeiro de 2008
Olha só o achado, Rozane, a vingadora
A mulher seqüelada
Seqüelada. Haverá prazer maior do que uma palavra nova numa mulher das antigas? As letrinhas morrem de rir, a moça infelizmente não pára de chorar e de perguntar. O que aconteceu? Seqüelas doem. Por muito. Ligue seu aparelho estereofônico e escute as duas. Já teve a mulata que não está no mapa, o remédio que o doutor me receitou e tantas outras. Todas lindas. As certinhas do Lalau, as garotas do Alceu, as dez mais, as chacretes, as existencialistas com toda razão, as boazudas, as frenéticas, as sufraguetes, as marias chuteiras, as socialites, os brotos, as gatinhas, as cachorras e as eternas cinéfilas cubistas do Estação. Agora é a vez da mulher seqüelada, a mais triste. O trema é antigo, o sentido novo. O problema, coitadas, o mesmo de sempre. O medo, a quase certeza, de que neste momento existe outra tocando a pele dele e o enleio de ontem, o conluio da véspera, foi o último. O medo, a absoluta certeza de constatar que o amor é feito de mãos e dentes, o resto se desfaz na vaguitude dos espíritos, no desespero das saudades, na obsessão eterna, amém. A seqüelada não está no dicionário. Houaiss. Aurélio. Eles não sabiam ainda. Perderam este bonde semântico. Homens tradicionais, todos bem casados, não sabiam nada do pegapracapá amoroso. Nossos dicionaristas não tiveram o prazer. Pularam o verbete. Maysa era uma seqüelada quando cantava meu mundo caiu e me fez ficar assim. Estropiada. Desparagonada. Anarquizada. De quatro. Ela sofria. Dois imensos olhos não pacíficos chorando abandonos semestrais. Nora Ney, então, nem se fala. Ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de bem me quer. Hoje há cantoras ecléticas, seqüelada nenhuma se admite. Seqüelada, ouço-as maldizer, ficava a vovozinha. Não que seja praga-e-budapeste insuperáveis. Não lhes ria. Acontece um dia e a todas em sua hora de desespero o rótulo lhes caberá naquele esgar de sempre. Ali, na esquina do buço dourado com a covinha da bochecha. Todos saberão ou, os mais míopes, ouvirão que você não balbucia outra coisa. Ele. Sumiu. Volta? Há a mulher da vida, a Maria ninguém, a canhão, a hippie, a vai com as outras, a vizinha faladeira. A seqüelada já estava nas cavernas egípcias, nenhuma novidade no seu despudor sofrido. Os gregos, os portugueses, os fenícios, todos os homens em algum momento iam embora e deixavam a pobre coitada a perguntar para os amigos. Por quê? Disse que me queria. Rimou as mais doidas poesias. O amor é sentimento ou matéria? Dar ou receber? Por que o espírito é tão possessivo? Noventa por cento do tempo dela são dedicados a tentar entender o na maioria das vezes verbalmente inexplicável. Ele não ligou. Disse que vinha. A mulher seqüelada é isso que você já percebeu. Aquela que ficou traumatizada pela tristeza que Vinicius anunciava na canção. Se a vida é a arte do encontro por que tanto desencontro nessa vida. Eu encontrei uma seqüelada dias atrás e ela me foi sincera no pedido. Que eu a ajudasse a colocá-la no sono daquele certo homem e ele nunca mais dormisse em paz. Nunca mais acertasse o tom de uma música, nunca mais concordasse o verbo com o sujeito, nunca mais acertasse o foco e a luz de uma maldita foto. Que a seqüela atravessasse a rua, sem sinalizar seu novo rumo, e de surpresa, como o carcamano tinha feito com ela, como uma Pajero desgovernada, agora o atingisse — e eu amanhã publicasse no jornal a mais linda das notícias. Que os sinais vitais do indigitado, o seu orgulho de macho, a soberba dos que abandonam, já não estavam mais preservados. Havia se ido desta para uma pior e que a assombração de seu grito de orgasmo pairasse toda noite sobre aquela última a quem ele havia tocado a pele. Só assim ela, a seqüelada que me pede ajuda, se libertaria de reinventar todos os dias os olhos de desejos que ele, ainda anteontem pela manhã, debruçava sobre seu corpo. Só assim ela se livraria do gosto da hóstia consagrada que em seguida ele colocou, recitando o mantra lírico-safado dos amantes, em sua boca arfante. Ela queria mais, mais, mais, e agora sabia tudo em vão. A seqüelada é aquela que se espanta com a voz do corvo na orelha. Nunca mais. Nunca mais. Certas noites ela pede para que a igreja evangélica logo ao lado amplifique dez vezes os gritos de aleluia e lhe apague o corvo das orelhas. Mas o corvo também tem seu sistema de som e TV. Nunca mais é nunca mais. Fala mais alto. Maria Adelaide do Amaral, da minissérie “JK” me perguntou outro dia. Como se dizia lésbica nos anos 50, já que lésbica propriamente não se dizia nos anos dourados da repressão sexual. Cassandra Rios parece que carregava o estigma, nenhuma mais. Sexo não era essa alaúza de agora. Eu arrisquei paraíba e parece que alguém vai ser chamada assim na TV. Não vem ao caso. Seqüelada não tem nada a ver com isso. Pelo contrário. Ela gosta é dos homens, mas geralmente dos homens errados. Tem a ver com a paraíba, mulher macho, sim senhor, apenas porque os rótulos são cruéis e ajudam a entender em quatro sílabas as 500 páginas da odisséia de Ulisses. Entre os adolescentes, por exemplo, há uma seqüelada diferente. Para eles a seqüelada é apenas a mulher lerda, meio viajandona , que não entende bem as coisas. Sofre das idéias, os buracos da maconha já apagando uns arquivos da memória. Na faixa acima dos 30 anos as seqüelas são outras. Atacam o coração. A seqüela identifica a vítima de um cretino qualquer que prometeu mundos, fundos e uma viagem para os cafundós mais profundos onde ninguém interromperia a pressa de suas mãos e dentes. Foi o que ela entendeu e agora ei-la aqui. De quatro, feito a outra. Na véspera do Natal, na noite de aniversário, minutos depois de ter sido presenteado com uma caixa de DVDs dos Beatles, o cara não explicou muito bem o que estava acontecendo para aquele súbito tremor nos artelhos. Arriscou umas palavras vagas sobre a complexidade de se estabelecer um tempo comum entre eles. Parou no meio de uma frase sobre a falta de sintonia entre a ambição física e a correspondência dos sentidos. Olhou turvo para a mosca varejeira que passeava sobre a pia. Bateu a porta como se fosse ali no quiosque comprar flores. E foi. Para sempre. Nem se dignou ao aviso. Era a extrema-unção dos católicos, a saideira do Braca, o baile da cremação das tristezas dos carnavalescos, o último acorde para os melômanos, o trilar do apito para os boleiros. Bateu a porta e inaugurou no peito de mais uma muher a seqüela terçã que a tudo embaça e não deixa crer que amanhã, e nem mesmo depois do carnaval de satisfaction dos Rolling Stones, nunca mais será outro dia. Maldito o amor lhe seja.
(Joaquim Ferreira dos Santos)
Seqüelada. Haverá prazer maior do que uma palavra nova numa mulher das antigas? As letrinhas morrem de rir, a moça infelizmente não pára de chorar e de perguntar. O que aconteceu? Seqüelas doem. Por muito. Ligue seu aparelho estereofônico e escute as duas. Já teve a mulata que não está no mapa, o remédio que o doutor me receitou e tantas outras. Todas lindas. As certinhas do Lalau, as garotas do Alceu, as dez mais, as chacretes, as existencialistas com toda razão, as boazudas, as frenéticas, as sufraguetes, as marias chuteiras, as socialites, os brotos, as gatinhas, as cachorras e as eternas cinéfilas cubistas do Estação. Agora é a vez da mulher seqüelada, a mais triste. O trema é antigo, o sentido novo. O problema, coitadas, o mesmo de sempre. O medo, a quase certeza, de que neste momento existe outra tocando a pele dele e o enleio de ontem, o conluio da véspera, foi o último. O medo, a absoluta certeza de constatar que o amor é feito de mãos e dentes, o resto se desfaz na vaguitude dos espíritos, no desespero das saudades, na obsessão eterna, amém. A seqüelada não está no dicionário. Houaiss. Aurélio. Eles não sabiam ainda. Perderam este bonde semântico. Homens tradicionais, todos bem casados, não sabiam nada do pegapracapá amoroso. Nossos dicionaristas não tiveram o prazer. Pularam o verbete. Maysa era uma seqüelada quando cantava meu mundo caiu e me fez ficar assim. Estropiada. Desparagonada. Anarquizada. De quatro. Ela sofria. Dois imensos olhos não pacíficos chorando abandonos semestrais. Nora Ney, então, nem se fala. Ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de bem me quer. Hoje há cantoras ecléticas, seqüelada nenhuma se admite. Seqüelada, ouço-as maldizer, ficava a vovozinha. Não que seja praga-e-budapeste insuperáveis. Não lhes ria. Acontece um dia e a todas em sua hora de desespero o rótulo lhes caberá naquele esgar de sempre. Ali, na esquina do buço dourado com a covinha da bochecha. Todos saberão ou, os mais míopes, ouvirão que você não balbucia outra coisa. Ele. Sumiu. Volta? Há a mulher da vida, a Maria ninguém, a canhão, a hippie, a vai com as outras, a vizinha faladeira. A seqüelada já estava nas cavernas egípcias, nenhuma novidade no seu despudor sofrido. Os gregos, os portugueses, os fenícios, todos os homens em algum momento iam embora e deixavam a pobre coitada a perguntar para os amigos. Por quê? Disse que me queria. Rimou as mais doidas poesias. O amor é sentimento ou matéria? Dar ou receber? Por que o espírito é tão possessivo? Noventa por cento do tempo dela são dedicados a tentar entender o na maioria das vezes verbalmente inexplicável. Ele não ligou. Disse que vinha. A mulher seqüelada é isso que você já percebeu. Aquela que ficou traumatizada pela tristeza que Vinicius anunciava na canção. Se a vida é a arte do encontro por que tanto desencontro nessa vida. Eu encontrei uma seqüelada dias atrás e ela me foi sincera no pedido. Que eu a ajudasse a colocá-la no sono daquele certo homem e ele nunca mais dormisse em paz. Nunca mais acertasse o tom de uma música, nunca mais concordasse o verbo com o sujeito, nunca mais acertasse o foco e a luz de uma maldita foto. Que a seqüela atravessasse a rua, sem sinalizar seu novo rumo, e de surpresa, como o carcamano tinha feito com ela, como uma Pajero desgovernada, agora o atingisse — e eu amanhã publicasse no jornal a mais linda das notícias. Que os sinais vitais do indigitado, o seu orgulho de macho, a soberba dos que abandonam, já não estavam mais preservados. Havia se ido desta para uma pior e que a assombração de seu grito de orgasmo pairasse toda noite sobre aquela última a quem ele havia tocado a pele. Só assim ela, a seqüelada que me pede ajuda, se libertaria de reinventar todos os dias os olhos de desejos que ele, ainda anteontem pela manhã, debruçava sobre seu corpo. Só assim ela se livraria do gosto da hóstia consagrada que em seguida ele colocou, recitando o mantra lírico-safado dos amantes, em sua boca arfante. Ela queria mais, mais, mais, e agora sabia tudo em vão. A seqüelada é aquela que se espanta com a voz do corvo na orelha. Nunca mais. Nunca mais. Certas noites ela pede para que a igreja evangélica logo ao lado amplifique dez vezes os gritos de aleluia e lhe apague o corvo das orelhas. Mas o corvo também tem seu sistema de som e TV. Nunca mais é nunca mais. Fala mais alto. Maria Adelaide do Amaral, da minissérie “JK” me perguntou outro dia. Como se dizia lésbica nos anos 50, já que lésbica propriamente não se dizia nos anos dourados da repressão sexual. Cassandra Rios parece que carregava o estigma, nenhuma mais. Sexo não era essa alaúza de agora. Eu arrisquei paraíba e parece que alguém vai ser chamada assim na TV. Não vem ao caso. Seqüelada não tem nada a ver com isso. Pelo contrário. Ela gosta é dos homens, mas geralmente dos homens errados. Tem a ver com a paraíba, mulher macho, sim senhor, apenas porque os rótulos são cruéis e ajudam a entender em quatro sílabas as 500 páginas da odisséia de Ulisses. Entre os adolescentes, por exemplo, há uma seqüelada diferente. Para eles a seqüelada é apenas a mulher lerda, meio viajandona , que não entende bem as coisas. Sofre das idéias, os buracos da maconha já apagando uns arquivos da memória. Na faixa acima dos 30 anos as seqüelas são outras. Atacam o coração. A seqüela identifica a vítima de um cretino qualquer que prometeu mundos, fundos e uma viagem para os cafundós mais profundos onde ninguém interromperia a pressa de suas mãos e dentes. Foi o que ela entendeu e agora ei-la aqui. De quatro, feito a outra. Na véspera do Natal, na noite de aniversário, minutos depois de ter sido presenteado com uma caixa de DVDs dos Beatles, o cara não explicou muito bem o que estava acontecendo para aquele súbito tremor nos artelhos. Arriscou umas palavras vagas sobre a complexidade de se estabelecer um tempo comum entre eles. Parou no meio de uma frase sobre a falta de sintonia entre a ambição física e a correspondência dos sentidos. Olhou turvo para a mosca varejeira que passeava sobre a pia. Bateu a porta como se fosse ali no quiosque comprar flores. E foi. Para sempre. Nem se dignou ao aviso. Era a extrema-unção dos católicos, a saideira do Braca, o baile da cremação das tristezas dos carnavalescos, o último acorde para os melômanos, o trilar do apito para os boleiros. Bateu a porta e inaugurou no peito de mais uma muher a seqüela terçã que a tudo embaça e não deixa crer que amanhã, e nem mesmo depois do carnaval de satisfaction dos Rolling Stones, nunca mais será outro dia. Maldito o amor lhe seja.
(Joaquim Ferreira dos Santos)
segunda-feira, 24 de dezembro de 2007
Poema de Natal
(antes do poema, uma dica de um presente a se dar de Natal: assistir ao filme A Vida dos Outros. Emocionante.)
Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos –
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será a nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos –
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai –
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte –
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
Vinicius de Moraes
Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos –
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será a nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos –
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai –
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte –
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
Vinicius de Moraes
sábado, 22 de dezembro de 2007
O Velho, o Menino e o Burro
Iam um velho, um menino e um burro para a feira, os três andando bem devagar.
Passaram algumas pessoas e comentaram:
– Que gente boba!
Andando tanto, quando podiam ser levados pelo burro!
O velho, então, montou o menino no burro e foi ele mesmo puxando o cabresto.
Passaram outras pessoas e disseram:
– Que absurdo! Um velho tão velho andando e o menino no bem-bom!
O menino desmontou, o velho subiu e foi conduzindo o burro.
Outros passaram e disseram:
– Que horror!
Um menino tão pequeno andando
o velho descansando em cima do burro!
O velho, então, pôs o menino com ele em cima do burro, e lá foram eles para a feira.
Mas, pessoas que também iam pelo caminho resmungaram:
– Como tratam mal um burro magro!
Ter de levar tamanho peso!
O velho e o menino desceram do burro e
passaram a carregá-lo nas costas.
E aí, todos os que passavam riam deles e diziam
– Mas que burrice! Afinal, para que serve um burro?
Moral da história:
Quem quer agradar todo mundo no fim não agrada ninguém.
Passaram algumas pessoas e comentaram:
– Que gente boba!
Andando tanto, quando podiam ser levados pelo burro!
O velho, então, montou o menino no burro e foi ele mesmo puxando o cabresto.
Passaram outras pessoas e disseram:
– Que absurdo! Um velho tão velho andando e o menino no bem-bom!
O menino desmontou, o velho subiu e foi conduzindo o burro.
Outros passaram e disseram:
– Que horror!
Um menino tão pequeno andando
o velho descansando em cima do burro!
O velho, então, pôs o menino com ele em cima do burro, e lá foram eles para a feira.
Mas, pessoas que também iam pelo caminho resmungaram:
– Como tratam mal um burro magro!
Ter de levar tamanho peso!
O velho e o menino desceram do burro e
passaram a carregá-lo nas costas.
E aí, todos os que passavam riam deles e diziam
– Mas que burrice! Afinal, para que serve um burro?
Moral da história:
Quem quer agradar todo mundo no fim não agrada ninguém.
terça-feira, 18 de dezembro de 2007
Assim continuaram...
Levantou-se com certa dificuldade e, com as mãos trêmulas, abriu a gaveta da cômoda, ajeitando os achados que havia posto dentro da carteira sob um suéter de lã. Distraído, olhou no espelho, deparando-se com aquele vulto imberbe que se assemelhava a ele.
Aprontou-se com a presteza de sempre e desta vez trocou o nó Windsor da gravata por um cruzado. A camisa branca, combinando com as paredes, foi logo coberta pelo paletó escuro. Sentou-se outra vez à beira da cama para uma oração a Nossa Senhora das Estradas, e abriu a esmo a coletânea de Jose Asunción Silva, que, a seu ver, era parte da liturgia diária.
Desceu as escadas seguindo o rastro deixado pela ultima fornada de arepas, que seriam devoradas pelos filhos. Pensava em Gaitan, no Bogotazo, e como as coisas tinham melhorado; e também piorado. Estava doido para passar as férias em San Gil novamente. Sua mulher, Sara, arquétipo de uma tela de Botero, estava sentada com três das criancas à esquerda da cabeceira, derretendo queijo no chocolate quente. Não tinha muito tempo, era hora de ir ao Supremo, pensar nas sinecuras.
(Continuem!!!! Mandem história nos comentários...)
Aprontou-se com a presteza de sempre e desta vez trocou o nó Windsor da gravata por um cruzado. A camisa branca, combinando com as paredes, foi logo coberta pelo paletó escuro. Sentou-se outra vez à beira da cama para uma oração a Nossa Senhora das Estradas, e abriu a esmo a coletânea de Jose Asunción Silva, que, a seu ver, era parte da liturgia diária.
Desceu as escadas seguindo o rastro deixado pela ultima fornada de arepas, que seriam devoradas pelos filhos. Pensava em Gaitan, no Bogotazo, e como as coisas tinham melhorado; e também piorado. Estava doido para passar as férias em San Gil novamente. Sua mulher, Sara, arquétipo de uma tela de Botero, estava sentada com três das criancas à esquerda da cabeceira, derretendo queijo no chocolate quente. Não tinha muito tempo, era hora de ir ao Supremo, pensar nas sinecuras.
(Continuem!!!! Mandem história nos comentários...)
Assim comecei...
Eduardo Ronderos delirava, contando os segundos com piscadelas no quarto todo branco de cal. Não era febre, mas vergonha, uma ferida inflamada resultado da opressiva quase derrota imposta pelo seu último inimigo, o tempo. Estava paralisado, imóvel na grande cama de lençóis brancos, subjugado pelo poderoso adversário. Lembrou-se, entre micromomentos de calma escuridão, das palavras da centenária Úrsula. “O tempo não passa, ele gira em círculos”. E sorriu dentes amarelos em contraste com a saliva. Eu vou vencer!, ensurdeceu sua voz toda a estância na velha Santa Fé de Antioquia.
Esticou a mão e alcançou os pequenos papéis deixados na mesa ao lado da cama pela filha Clara, sua bênção, a mais bonita das quatro, a mais dedicada dos sete que vingaram. As imagens impressas de Santa Dinfna e Santo Pelegrino e uma foto de Clara, além dos dentes de Ronderos, quebravam a uniformidade branca e insana do quarto. Eram sua platéia bizarra.
Esticou a mão e alcançou os pequenos papéis deixados na mesa ao lado da cama pela filha Clara, sua bênção, a mais bonita das quatro, a mais dedicada dos sete que vingaram. As imagens impressas de Santa Dinfna e Santo Pelegrino e uma foto de Clara, além dos dentes de Ronderos, quebravam a uniformidade branca e insana do quarto. Eram sua platéia bizarra.
quarta-feira, 5 de dezembro de 2007
segunda-feira, 3 de dezembro de 2007
Incentivo é bom e eu gosto
Todos os dias acordo meio desistindo de escrever. Falta de tempo ou preguiça, depende. Fico enrolando, passo um tempo ausente e quando acho que o sem-saquismo será para sempre, uma palavra amiga escrita aqui e uma lembrança acolá fazem as palavras chegarem ao blogue.
Dessa vez, as responsáveis foram a Cris e a Guta, pelos elogios, e uma lágrima fujona. Eu me lembrei do início de tudo: uma dor de arrebentar a carcaça, de morder edredom para não soluçar, de rezar para morrer. Hiperbólico assim mesmo. Como a Guta definiu no seu Migrante Digital, foi um diário antienlouquecimento, conforme os textos saíam, o desespero era domesticado. A maioria das postagens foi para o arquivo porque não gosto de reler.
Hoje, porém, reli. Coisa de estado de espírito.
Dessa vez, as responsáveis foram a Cris e a Guta, pelos elogios, e uma lágrima fujona. Eu me lembrei do início de tudo: uma dor de arrebentar a carcaça, de morder edredom para não soluçar, de rezar para morrer. Hiperbólico assim mesmo. Como a Guta definiu no seu Migrante Digital, foi um diário antienlouquecimento, conforme os textos saíam, o desespero era domesticado. A maioria das postagens foi para o arquivo porque não gosto de reler.
Hoje, porém, reli. Coisa de estado de espírito.
sexta-feira, 23 de novembro de 2007
Carta do amor eterno
"Acordei de manhã e pensei em você. Óbvio. Dormi e pensei em você. Meu amor não acaba e tá dentro de mim. O oposto do medo é o amor. Dá pra ser feliz. Um beijo muito enorme pois você é uma pessoa amada pra caralho por mim. Meu coração não te esquece... não te esquece... não te esquece... E gosto desse amar, não me importam por agora as lacunas, ausências, essas coisas. Eu te amo."
Caldos na infância
O assunto era família na troca de e-mails. Na verdade, as mensagens falavam de pêlos e fios de lã que deixamos ou dos arranhões que guardamos quando passamos debaixo dos arames farpados das relações com nossos genitores. Lembrei-me do meu pai, carinhoso, porém adepto do "tem que crescer, tem que se virar".
Eu tinha 6 anos quando me mudei da Ilha para Copacabana. Na Ilha, entrávamos no mar tranqüilamente, pois não há ondas na Baía da Guanabara, exceto um dia ou outro no ano, quando a natureza faz umas marolas por lá.
Copacabana era forte para mim, sempre assustada. Pois meu pai entrou comigo e com o meu irmão no mar e de repente saiu fora e nos deixou lá. Fiquei meio desesperada olhando para ele na areia. Adhemar, dois anos mais velho, ao meu lado, batendo as perninhas para não se afogar, como eu. Então, decidimos que tínhamos que sair, porque meu pai não iria nos pegar, sabíamos.
Levei muito caldo, comi muita areia, mas aprendi a entrar no mar e sair.
Como um bicho que ensina as crias, meu pai mostrou o caminho e os perigos naquele dia e nunca mais repetiu a lição.
Eu tinha 6 anos quando me mudei da Ilha para Copacabana. Na Ilha, entrávamos no mar tranqüilamente, pois não há ondas na Baía da Guanabara, exceto um dia ou outro no ano, quando a natureza faz umas marolas por lá.
Copacabana era forte para mim, sempre assustada. Pois meu pai entrou comigo e com o meu irmão no mar e de repente saiu fora e nos deixou lá. Fiquei meio desesperada olhando para ele na areia. Adhemar, dois anos mais velho, ao meu lado, batendo as perninhas para não se afogar, como eu. Então, decidimos que tínhamos que sair, porque meu pai não iria nos pegar, sabíamos.
Levei muito caldo, comi muita areia, mas aprendi a entrar no mar e sair.
Como um bicho que ensina as crias, meu pai mostrou o caminho e os perigos naquele dia e nunca mais repetiu a lição.
quinta-feira, 22 de novembro de 2007
Noite de brincadeira
A dupla já desceu do táxi rindo: "Uh, uh, vamo invadir!". Uma porta de ferro trancada, um porteiro eletrônico e uma longa escada eram os obstáculos a transpor para a vitória. O objetivo naquela noite era penetrar na festa. Num primeiro momento, imaginou-se que a aventura seria acobertada pela penumbra dos furdunços noturnos. Mas da calçada já dava para antever o mico. Tudo estava muito claro atrás daquela porta vermelha. Aproveitando uma suposta convidada que chegava, a dupla postou-se à entrada.
- Não voltou subir, não. Vocês podem interfonar.
Entreolharam-se. E agora? Interfonaram.
- É Ana, Lúcia e Claudia. Pode escolher.
Grudadinhas, quase de mãos dadas, como pequenos irmãos assustados, subiram sem respirar. Uma cara desconhecida, é óbvio, as esperava lá no alto. Tudo muito claro. Holofotes acesos como aqueles de filmes antigos que detectam fugas de penitenciárias.
- Ele está naquela sala, podem ir lá.
A dupla se embrenhou para uma sala contígua, vazia, para esconder a cabeça como avestruz e ficar ali até morrer de vergonha.
- Não, naquela outra, ele está lá. Podem ir.
As ordens foram plenamente acatadas pelas crianças travessas e apenas adiaram os planos imediatos de suicídio. Ai, meus sais.
- Entra lá, você que é amiga de Orkut.
- Não sou, não.
- Como????? Não é??? E o que a gente está fazendo aqui. Além de não sermos convidadas, nem conhecemos o aniversariante que vamos ter que cumprimentar e dar beijinho agora??? Vou voltar. Vou dizer que a gente errou de porta, que estava procurando a livraria e se perdeu.
- Não, vamos lá, mas vai você na frente.
Que roubada. Não dava mesmo para recuar, éramos observadas.
Com o milagre da transmutação do sangue em adrenalina, entramos. Quatro, apenas quatro convidados.
(CONTINUA...)
- Não voltou subir, não. Vocês podem interfonar.
Entreolharam-se. E agora? Interfonaram.
- É Ana, Lúcia e Claudia. Pode escolher.
Grudadinhas, quase de mãos dadas, como pequenos irmãos assustados, subiram sem respirar. Uma cara desconhecida, é óbvio, as esperava lá no alto. Tudo muito claro. Holofotes acesos como aqueles de filmes antigos que detectam fugas de penitenciárias.
- Ele está naquela sala, podem ir lá.
A dupla se embrenhou para uma sala contígua, vazia, para esconder a cabeça como avestruz e ficar ali até morrer de vergonha.
- Não, naquela outra, ele está lá. Podem ir.
As ordens foram plenamente acatadas pelas crianças travessas e apenas adiaram os planos imediatos de suicídio. Ai, meus sais.
- Entra lá, você que é amiga de Orkut.
- Não sou, não.
- Como????? Não é??? E o que a gente está fazendo aqui. Além de não sermos convidadas, nem conhecemos o aniversariante que vamos ter que cumprimentar e dar beijinho agora??? Vou voltar. Vou dizer que a gente errou de porta, que estava procurando a livraria e se perdeu.
- Não, vamos lá, mas vai você na frente.
Que roubada. Não dava mesmo para recuar, éramos observadas.
Com o milagre da transmutação do sangue em adrenalina, entramos. Quatro, apenas quatro convidados.
(CONTINUA...)
sábado, 17 de novembro de 2007
Só 10%????
Algumas mulheres (10%), próximo orgasmo, expelem uma secreção como os homens. É um líquido claro, às vezes leitoso, ralo e geralmente inodoro. Isso, geralmente, é observado em mulheres que estejam muito excitadas, apresentem múltiplos orgasmos ou aquelas que atingem o clímax através da estimulação vaginal. A secreção ejaculada pode ter de 15 a 200 mililitros e é produzida pelas glândulas parauretrais, que ficam ao lado da uretra e não são visíveis.
terça-feira, 13 de novembro de 2007
Mudei
De tanto te pensar, me veio a ilusão.
A mesma ilusão
Da égua que sorve a água pensando sorver a lua.
De te pensar me deito nas aguadas
E acredito luzir e estar atada
Ao fulgor do costado de um negro cavalo de cem luas.
De te sonhar, tenho nada,
Mas acredito em mim o ouro e o mundo.
De te amar, possuída de ossos e abismos
Acredito ter carne e vadiar
Ao redor dos teus cismos. De nunca te tocar
Tocando os outros
Acredito ter mãos, acredito ter boca
Quando só tenho patas e focinho.
De muito desejar altura e eternidade
Me vem a fantasia de que Existo e Sou.
Quando sou nada: égua fantasmagórica
Sorvendo a lua n'água.
(Hilda Hilst)
A mesma ilusão
Da égua que sorve a água pensando sorver a lua.
De te pensar me deito nas aguadas
E acredito luzir e estar atada
Ao fulgor do costado de um negro cavalo de cem luas.
De te sonhar, tenho nada,
Mas acredito em mim o ouro e o mundo.
De te amar, possuída de ossos e abismos
Acredito ter carne e vadiar
Ao redor dos teus cismos. De nunca te tocar
Tocando os outros
Acredito ter mãos, acredito ter boca
Quando só tenho patas e focinho.
De muito desejar altura e eternidade
Me vem a fantasia de que Existo e Sou.
Quando sou nada: égua fantasmagórica
Sorvendo a lua n'água.
(Hilda Hilst)
quarta-feira, 7 de novembro de 2007
Maggie foi cobrada pela Patrícia Evans
I'm an Emotional Idiot
so get away from me.
I mean,
COME HERE.
Wait, no,
that's too close,
give me some space
it's a big country,
there's plenty of room,
don't sit so close to me.
Hey, where are you?
I haven't seen you in days.
Whadya, having an affair?
Who is she?
Come on,
aren't I enough for you?
God,
You're so cold.
I never know what you're thinking.
You're not very affectionate.
I mean,
you're clinging to me,
DON'T TOUCH ME,
what am I, your fucking cat?
Don't rub me like that.
Don't you have anything better to do
than sit there fawning over me?
Don't you have any interests?
Hobbies?
Sailing Fly fishing
Archeology?
There's an archeology expedition leaving tomorrow
why don't you go?
I'll loan you the money,
my money is your money.
my life is your life
my soul is yours
without you I'm nothing.
Move in with me
we'll get a studio apartment together, save on rent,
well, wait, I mean, a one bedroom,
so we don't get in each other's hair or anything
or, well,
maybe a two bedroom
I'll have my own bedroom,
it's nothing personal
I just need to be alone sometimes,
you do understand,
don't you?
Hey, why are you acting distant?
Where you goin',
was it something I said?
What
What did I do?
I'm an emotional idiot
so get away from me
I mean,
MARRY ME.
so get away from me.
I mean,
COME HERE.
Wait, no,
that's too close,
give me some space
it's a big country,
there's plenty of room,
don't sit so close to me.
Hey, where are you?
I haven't seen you in days.
Whadya, having an affair?
Who is she?
Come on,
aren't I enough for you?
God,
You're so cold.
I never know what you're thinking.
You're not very affectionate.
I mean,
you're clinging to me,
DON'T TOUCH ME,
what am I, your fucking cat?
Don't rub me like that.
Don't you have anything better to do
than sit there fawning over me?
Don't you have any interests?
Hobbies?
Sailing Fly fishing
Archeology?
There's an archeology expedition leaving tomorrow
why don't you go?
I'll loan you the money,
my money is your money.
my life is your life
my soul is yours
without you I'm nothing.
Move in with me
we'll get a studio apartment together, save on rent,
well, wait, I mean, a one bedroom,
so we don't get in each other's hair or anything
or, well,
maybe a two bedroom
I'll have my own bedroom,
it's nothing personal
I just need to be alone sometimes,
you do understand,
don't you?
Hey, why are you acting distant?
Where you goin',
was it something I said?
What
What did I do?
I'm an emotional idiot
so get away from me
I mean,
MARRY ME.
domingo, 4 de novembro de 2007
Volta para o mar, oferenda!
A casa do Gláuber é daquelas que nos fazem sentir bem. Pelo grande terraço que ventila e refresca, pelas excelentes músicas do anfitrião-DJ, pela comidinha gostosa que só ele prepara para receber seus convidados, pelas boas conversas inteligentes sem pedantismo, pelas imprescindíveis gargalhadas, pelas anunciadas bebedeiras, pelo carinho do dono. Por tudo isso e pelo que não consigo traduzir, é quase impossível recusar um convite para ir lá, onde já participei de uma das mais memoráveis festas da vida com apenas seis pessoas.
Da cabeça encaracolada do Gláuber saíram idéias geniais como a "Coelhada de Páscoa", que ele mesmo cozinhava no terraço, uma tradição que se foi com a Dani, a mulher que enchia as escadas de colchonetes para fazer um grande tobogã, onde escorregava com nossas crianças. Depois do almoço, chocolates para todos e delírios só para os adultos.
A casa tinha piscina, mas deu infiltração e agora tem mais espaço e um chuveirão. Tudo é bom. Tudo é calculadamente agradável. Ir à casa do Gláuber significa levar idéias e sorrisos embora conosco. Ontem, conversando coisas tristes com a Anna José, ela soltou: "Ah, Ana, esquece, fala assim, ó: 'Volta para o mar, oferenda!'". É isso. A casa do Gláuber é um grande centro de triagem para retornos das oferendas ao mar.
Da cabeça encaracolada do Gláuber saíram idéias geniais como a "Coelhada de Páscoa", que ele mesmo cozinhava no terraço, uma tradição que se foi com a Dani, a mulher que enchia as escadas de colchonetes para fazer um grande tobogã, onde escorregava com nossas crianças. Depois do almoço, chocolates para todos e delírios só para os adultos.
A casa tinha piscina, mas deu infiltração e agora tem mais espaço e um chuveirão. Tudo é bom. Tudo é calculadamente agradável. Ir à casa do Gláuber significa levar idéias e sorrisos embora conosco. Ontem, conversando coisas tristes com a Anna José, ela soltou: "Ah, Ana, esquece, fala assim, ó: 'Volta para o mar, oferenda!'". É isso. A casa do Gláuber é um grande centro de triagem para retornos das oferendas ao mar.
sábado, 3 de novembro de 2007
Travequinha amada
Querida Cris (como Querido Diário),
sei que você não é espiritualista nem esotérica, mas tampouco veste o fardão do materialismo científico, o que lhe faz ter uma posição pertinente a respeito de fatos bobos desse nosso cotidiano que ora conto, ora guardo na preguiça amiga.
Hoje pensei muito em você, nas suas opiniões e na sua risada com o que vou narrar. Estou de plantão, leia-se trancafiada dentro de casa, vendo sites, escarafunchando jornais, cuidando de uma boa cobertura para o nascimento do segundo filho da Angélica - não se compadeça nem gaste sua verve falando do sistema capitalista que nos suga e destrói nossos sonhos, daqui a pouco vou ver os queridos na casa do Gláuber e isso me basta.
Bom, a rotina do plantão manda acordar cedo para comprar os jornais. Acordei quase que mais cedo que os jornaleiros e fiquei perambulando por Botafogo à espera de uma banca aberta com os jornais do Rio e de SP. Aproveitei para caminhar na praia e dei ainda um pulo na igreja, porque gosto de falar com as imagens. Segurei na mão de um lindo Cristo e saí de lá com aquele dom de "ver" em que você não acredita.
Na volta para a banca, carros estacionados, telefones celulares tocando sem parar, tumulto nas ruas à minha frente às sete e meia da manhã. Fiquei zonza. Tentei respirar, mas tiraram meu ar. Quis me escorar, mas não havia paredes nem chão. Pô, Silvona amiga, você diria, fumar um beque antes do café dá nisso, rapá. Não, sem beques, tô limpa. Flutuei na volta para casa, meninos, famílias inteiras ainda dormiam na calçada. Um garoto cheirava cola, olhou para o alto e me viu. Esticou a mão da garrafa com a droga dentro na minha direção, uma oferenda para mim. Tudo em câmera lenta. Torci muito para chegar logo em casa, eu chorava, e a casa chegou a mim. Mas o que você viu, mulher de Deus?, perguntaria a amiga escritora. Na verdade, nada e tudo. Nada do que eu não sabia e tudo que eu escondia do meu coração. Esse mundo dá pena, Cris, e eu estou cansada de lutar com os seus burgas, amiga.
sei que você não é espiritualista nem esotérica, mas tampouco veste o fardão do materialismo científico, o que lhe faz ter uma posição pertinente a respeito de fatos bobos desse nosso cotidiano que ora conto, ora guardo na preguiça amiga.
Hoje pensei muito em você, nas suas opiniões e na sua risada com o que vou narrar. Estou de plantão, leia-se trancafiada dentro de casa, vendo sites, escarafunchando jornais, cuidando de uma boa cobertura para o nascimento do segundo filho da Angélica - não se compadeça nem gaste sua verve falando do sistema capitalista que nos suga e destrói nossos sonhos, daqui a pouco vou ver os queridos na casa do Gláuber e isso me basta.
Bom, a rotina do plantão manda acordar cedo para comprar os jornais. Acordei quase que mais cedo que os jornaleiros e fiquei perambulando por Botafogo à espera de uma banca aberta com os jornais do Rio e de SP. Aproveitei para caminhar na praia e dei ainda um pulo na igreja, porque gosto de falar com as imagens. Segurei na mão de um lindo Cristo e saí de lá com aquele dom de "ver" em que você não acredita.
Na volta para a banca, carros estacionados, telefones celulares tocando sem parar, tumulto nas ruas à minha frente às sete e meia da manhã. Fiquei zonza. Tentei respirar, mas tiraram meu ar. Quis me escorar, mas não havia paredes nem chão. Pô, Silvona amiga, você diria, fumar um beque antes do café dá nisso, rapá. Não, sem beques, tô limpa. Flutuei na volta para casa, meninos, famílias inteiras ainda dormiam na calçada. Um garoto cheirava cola, olhou para o alto e me viu. Esticou a mão da garrafa com a droga dentro na minha direção, uma oferenda para mim. Tudo em câmera lenta. Torci muito para chegar logo em casa, eu chorava, e a casa chegou a mim. Mas o que você viu, mulher de Deus?, perguntaria a amiga escritora. Na verdade, nada e tudo. Nada do que eu não sabia e tudo que eu escondia do meu coração. Esse mundo dá pena, Cris, e eu estou cansada de lutar com os seus burgas, amiga.
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