Sonhos voltam a rondar. Aproximam-se, farejam e fogem. Sou eu que os assusto. Eu e o meu medo de doer.
Em breve, vão se deixar tocar. Meu Deus, como desejo esse dia.
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Terremoto no Canadá
E eu embarcando para lá. Parece que busco as catástrofes, como se a vida harmônica não tivesse sua graça. Desafios, paixão. Tudo o que vem rápido passa voando e isso me excita. Não posso me queixar de monotonia. Amo a vida e sou tentada pela morte.
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Blecaute interior
Subo a pé os sete andares até meu apartamento. Corro jamaicanamente das lembranças inquietantes que o blecaute na cidade me causa, mas sou ultrapassada e bloqueada por elas. Vejo-me na mesma cena, em outra época. O calor, a falta de luz, a escada, a falta de ar, as elucubrações, a falta de você. Voltava da rua sozinha, enquanto um dilúvio escurecia e encharcava as ruas. Havíamos combinado assistir ao show da Rita Lee. Você não apareceu. Da porta do Canecão, debaixo de chuva, liguei enlouquecida para seu celular umas 380 vezes. Enquanto isso, já ia me imaginando lá dentro, esgoelando-me junto com a ruiva nos versos "juro que não vai doer se um dia eu roubar, o seu anel de brilhante, afinal de contas dei meu coração, e você pôs na estante...". Blergh. Graças ao breu total, a apresentação foi impossível naquele sábado.
Coração apertado, lágrimas misturadas à chuva, me arrastei miseravelmente até minha casa com dois ingressos válidos para o dia seguinte e dormi o sono pesado que nos defende da dor.
Você me ligou de madrugada. Não atendi. De manhã cedo. Suspirei um alô. Havia pedidos de desculpas na voz ainda embriagada, "foi meu apagão, amor", e palavras apaixonadas. Sim, eu ainda o queria por mais um breve tempo.
Coração apertado, lágrimas misturadas à chuva, me arrastei miseravelmente até minha casa com dois ingressos válidos para o dia seguinte e dormi o sono pesado que nos defende da dor.
Você me ligou de madrugada. Não atendi. De manhã cedo. Suspirei um alô. Havia pedidos de desculpas na voz ainda embriagada, "foi meu apagão, amor", e palavras apaixonadas. Sim, eu ainda o queria por mais um breve tempo.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Emoção
Noite de 16 de abril de 1994. O telefone tocou ao lado da cama. Era meu amigo Ivan com um convite quase irrecusável: "Silvia, vambora ver o Chico Science no Circo Voador".
Fiquei tentada. "André, o Ivan está chamando a gente para ir ao Circo". Olhei para a minha barriga de 42 semanas de gravidez. "Acho melhor não, né?".
Declinamos, tristemente. Na madrugada do dia 17, comecei a sentir contrações e Laura nasceu.
No último sábado, 15 anos e sete meses depois, o Nação Zumbi, sem o Chico Science, morto em 1997, voltou ao Circo para show com as músicas do disco Da Lama ao Caos, o mesmo que eu havia perdido por causa do fim da gravidez. Dessa vez, estava lá misturada à massa que ocupou a lona. Calor congolês. Pulei, levei pisada, suei. Adolescente eu, adolescente tu. Jorge Du Peixe e Lucio Maia me arrepiaram. Uma cerveja antes do almoço é muito bom pra ficar pensando melhor.
Fiquei tentada. "André, o Ivan está chamando a gente para ir ao Circo". Olhei para a minha barriga de 42 semanas de gravidez. "Acho melhor não, né?".
Declinamos, tristemente. Na madrugada do dia 17, comecei a sentir contrações e Laura nasceu.
No último sábado, 15 anos e sete meses depois, o Nação Zumbi, sem o Chico Science, morto em 1997, voltou ao Circo para show com as músicas do disco Da Lama ao Caos, o mesmo que eu havia perdido por causa do fim da gravidez. Dessa vez, estava lá misturada à massa que ocupou a lona. Calor congolês. Pulei, levei pisada, suei. Adolescente eu, adolescente tu. Jorge Du Peixe e Lucio Maia me arrepiaram. Uma cerveja antes do almoço é muito bom pra ficar pensando melhor.
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Pequeno conto
Felipa acordou com sede de Antonio. Da última vez que se encontraram, ela o apertou como ao último tubo de pasta de dente da casa, já vazio, obcecada por retirar dele o que era necessário, mas sem esperança. Preferia não saber quantos dias havia se passado desde o abraço, porque tempo de ausência contabilizado é dor certa.
Vestiu-se e partiu para o trabalho impregnada de perfume seu - que tinha sido dele, pensou.
Sonhava Antonio na rua ensolarada e nem percebeu o impacto. Quando um anjo lhe deu colo, Felipa conseguiu enxergar seu amor entre o Cristo e o mar. Os que a viram depois contam só se lembrarem do sorriso no chão.
Vestiu-se e partiu para o trabalho impregnada de perfume seu - que tinha sido dele, pensou.
Sonhava Antonio na rua ensolarada e nem percebeu o impacto. Quando um anjo lhe deu colo, Felipa conseguiu enxergar seu amor entre o Cristo e o mar. Os que a viram depois contam só se lembrarem do sorriso no chão.
domingo, 1 de novembro de 2009
Vozes do além
Não sei não, mas parece que o mundo está cheio de esquizofrênicos. É um tal de ouvir coisas que nunca foram ditas que dá até medo. Em uma semana, duas amigas e um amigo vieram contar em lamúria que as pessoas com quem se relacionavam tiraram o corpo fora com a desculpa de que "as expectativas eram diferentes". Como já ouvi essa ladainha, perguntei a eles se haviam explicitado aos parceiros o que queriam nos respectivos envolvimentos. Nada, foi a resposta de todos. Nunca falaram em namoro, juntar trapinhos, filhos. Apenas pretendiam "viver bons momentos". Foi aí que descobri que essa expressão aspeada aparece no dicionário dos assustados como sinônimo de "compromisso", palavra realmente forte para quem está indeciso sobre seus caminhos. Bom, não vou tentar entender a cabeça alheia, seria enorme presunção, mas o que me chamou a atenção nos casos contados é que em todos havia muito desejo entre os casais. Lamentável saber que as pessoas não arriscam.
Para ilustrar, transcrevo uma conversa na praia, há muito tempo, com S., amigo antigo, que tinha os olhos brilhando de paixão quando me encontrou.
- Menino, soube que você está namorando.
- Não, Ana Silvia, não é bem namorando.
- Então é o quê?
- Ah, estou saindo com uma mulher.
- Saindo, dormindo, amando. Olha só seu sorriso, amigo. Isso é sorriso de felicidade. Ela é legal?
- Ela é maravilhosa.
- E o que falta para namorar?
- Como vou saber que ela é A mulher para mim?
- Acho que não vai saber.
- E se eu arriscar uma relação séria com ela e deixar passar a mulher da minha vida?
- Não acredito que exista O alguém na vida de ninguém. Mas o que você quer de alguém em relação a você e de você em relação a alguém?
- Não sei.
- Tem medo?
- Medo de me perder.
Para ilustrar, transcrevo uma conversa na praia, há muito tempo, com S., amigo antigo, que tinha os olhos brilhando de paixão quando me encontrou.
- Menino, soube que você está namorando.
- Não, Ana Silvia, não é bem namorando.
- Então é o quê?
- Ah, estou saindo com uma mulher.
- Saindo, dormindo, amando. Olha só seu sorriso, amigo. Isso é sorriso de felicidade. Ela é legal?
- Ela é maravilhosa.
- E o que falta para namorar?
- Como vou saber que ela é A mulher para mim?
- Acho que não vai saber.
- E se eu arriscar uma relação séria com ela e deixar passar a mulher da minha vida?
- Não acredito que exista O alguém na vida de ninguém. Mas o que você quer de alguém em relação a você e de você em relação a alguém?
- Não sei.
- Tem medo?
- Medo de me perder.
Sophia de Mello Breyner Andresen
A hora da partida
A hora da partida soa quando
Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.
A hora da partida soa quando
as árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.
Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.
A hora da partida soa quando
Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.
A hora da partida soa quando
as árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.
Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Palavras à deriva
Sinto falta de escrever. Mas ao mesmo tempo que dá essa vontade de ver as letras se juntando e as ideias tomando forma, bate uma preguiça de pensar, uma indecisão sobre o que contar. Dramas e comédias amontoam-se na minha vida, como em qualquer vida. Tudo é único e banal, arrastado e elétrico, surpreendente e déjà vu.
Quero agora imaginar meu passeio de barco amanhã e bloody mary ao entardecer. O mar como testemunha dos dois eventos e conversas em que uns ouvem os outros e respeitam. O diálogo rende, avança, encanta. Não perco mais tempo com palavras que não quero escutar. Estou surda completamente a mentiras, embustes, agressões - mentiras já são agressões, não? Aprendi que a mecânica é simples: se não falo, não ouço. Bom e fácil assim.
Quero agora imaginar meu passeio de barco amanhã e bloody mary ao entardecer. O mar como testemunha dos dois eventos e conversas em que uns ouvem os outros e respeitam. O diálogo rende, avança, encanta. Não perco mais tempo com palavras que não quero escutar. Estou surda completamente a mentiras, embustes, agressões - mentiras já são agressões, não? Aprendi que a mecânica é simples: se não falo, não ouço. Bom e fácil assim.
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Quem recebe isso não pode ser triste
The Mom Song
me lembrou você :)
te amo
Get up now
Get up now
Get up out of bed
Wash your face
Brush your teeth
Comb your sleepyhead
Here's your clothes and your shoes
Hear the words I said
Get up now ! Get up and make your bed
Are you hot ? Are you cold?
Are you wearing that?
Where's your books and your lunch and your homework at ?
Grab your coat and gloves and your scarf and hat
Don't forget ! You gotta feed the cat
Eat your breakfast , the experts tell us it 's the most important meal of all
Take your vitamins so you will grow up one day to be big and tall
Please remember the orthodontist will be seeing you at 3 today
Don't forget your piano lesson is this afternoon so you must play
Don't shovel
Chew slowly
But hurry
The bus is here
Be careful
Come back here
Did you wash behind your ears?
Play outside , don't play rough , will you just play fair?
Be polite , make a friend , don't forget to share
Work it out , wait your turn , never take a dare
Get along !
Don't make me come down there
Clean your room , fold your clothes , put your stuff away
Make your bed , do it now , do we have all day ?
Were you born in a barn ? Would you like some hay?
Can you even hear a word I say ?
Answer the phone ! Get off the phone !
Don't sit so close , turn it down , no texting at the table
No more computer time tonight!
Your iPod 's my iPod if you don't listen up
Where are you going and with whom and what time do you think you 're coming home?
Saying thank you , please , excuse me makes you welcome everywhere you roam
You 'll appreciate my wisdom someday when you 're older and you 're grown
Can't wait till you have a couple little children of your own
You 'll thank me for the counsel I gave you so willingly
But right now I thank you not to roll your eyes at me
Close your mouth when you chew , would appreciate
Take a bite maybe two of the stuff you hate
Use your fork , do not burp or I'll set you straight
Eat the food I put upon your plate
Get an A, get the door , don't get smart with me
Get a grip , get in here , I'll count to three
Get a job , get a life , get a PHD
Get a dose of ,
"I don't care who started it !
You 're grounded until you 're 36"
Get your story straight and tell the truth for once , for heaven's sake
And if all your friends jumped off a cliff would you jump , too?
If I've said it once , I've said at least a thousand times before
That you 're too old to act this way
It must be your father's DNA
Look at me when I am talking
Stand up straighter when you walk
A place for everything and everything must be in place
Stop crying or I'll give you something real to cry about
Oh!
Brush your teeth , wash your face, put your PJs on
Get in bed , get a hug , say a prayer with mom
Don't forget , I love you
And tomorrow we will do this all again because a mom 's work never ends
You don't need the reason why
Because, because , because , because
I said so , I said so , I said so , I said so
I'm the mom !
me lembrou você :)
te amo
Get up now
Get up now
Get up out of bed
Wash your face
Brush your teeth
Comb your sleepyhead
Here's your clothes and your shoes
Hear the words I said
Get up now ! Get up and make your bed
Are you hot ? Are you cold?
Are you wearing that?
Where's your books and your lunch and your homework at ?
Grab your coat and gloves and your scarf and hat
Don't forget ! You gotta feed the cat
Eat your breakfast , the experts tell us it 's the most important meal of all
Take your vitamins so you will grow up one day to be big and tall
Please remember the orthodontist will be seeing you at 3 today
Don't forget your piano lesson is this afternoon so you must play
Don't shovel
Chew slowly
But hurry
The bus is here
Be careful
Come back here
Did you wash behind your ears?
Play outside , don't play rough , will you just play fair?
Be polite , make a friend , don't forget to share
Work it out , wait your turn , never take a dare
Get along !
Don't make me come down there
Clean your room , fold your clothes , put your stuff away
Make your bed , do it now , do we have all day ?
Were you born in a barn ? Would you like some hay?
Can you even hear a word I say ?
Answer the phone ! Get off the phone !
Don't sit so close , turn it down , no texting at the table
No more computer time tonight!
Your iPod 's my iPod if you don't listen up
Where are you going and with whom and what time do you think you 're coming home?
Saying thank you , please , excuse me makes you welcome everywhere you roam
You 'll appreciate my wisdom someday when you 're older and you 're grown
Can't wait till you have a couple little children of your own
You 'll thank me for the counsel I gave you so willingly
But right now I thank you not to roll your eyes at me
Close your mouth when you chew , would appreciate
Take a bite maybe two of the stuff you hate
Use your fork , do not burp or I'll set you straight
Eat the food I put upon your plate
Get an A, get the door , don't get smart with me
Get a grip , get in here , I'll count to three
Get a job , get a life , get a PHD
Get a dose of ,
"I don't care who started it !
You 're grounded until you 're 36"
Get your story straight and tell the truth for once , for heaven's sake
And if all your friends jumped off a cliff would you jump , too?
If I've said it once , I've said at least a thousand times before
That you 're too old to act this way
It must be your father's DNA
Look at me when I am talking
Stand up straighter when you walk
A place for everything and everything must be in place
Stop crying or I'll give you something real to cry about
Oh!
Brush your teeth , wash your face, put your PJs on
Get in bed , get a hug , say a prayer with mom
Don't forget , I love you
And tomorrow we will do this all again because a mom 's work never ends
You don't need the reason why
Because, because , because , because
I said so , I said so , I said so , I said so
I'm the mom !
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Para André. Com carinho.
Casamentos possíveis – Contardo Calligaris
Uma das boas razões para se casar é a seguinte: uma vez casados, podemos culpar o casal por boa parte de nossas covardias e impotências.
O marido, por exemplo, pode responsabilizar mulher, filhos e casamento por ele ter desistido de ser o aventureiro que ainda dorme, inquieto, em seu peito. A decepção consigo mesmo é menos amarga quando é transformada em acusação: “Você está me impedindo de alcançar o que eu não tenho a coragem de querer”. Essas recriminações, que disfarçam nossos fracassos, não são unicamente masculinas. Certo, os homens são quase sempre assombrados por impossíveis devaneios de grandeza – como se algum destino extraordinário e inalcançável já tivesse sido sonhado para eles (e foi mesmo, geralmente pelas suas mães). Diante de tamanha expectativa, é cômodo alegar que o casal foi o impedimento. As mulheres, inversamente, seriam mais pé-no-chão, capazes de achar graça nas serventias do cotidiano. Por isso mesmo, aliás, elas encarnariam facilmente, para os homens, os limites que a realidade impõe aos sonhos que eles não têm a ousadia de realizar. Agora, as mulheres também sonham. Há a dona de casa que acusa o marido, os filhos e o casamento por ela ter desistido de outra vida (eventualmente, profissional), que teria sido fonte de maiores alegrias. E há, sobre tudo, para muitas mulheres, um sonho romântico de amor avassalador e irresistível, do qual, justamente, elas desistem por causa de marido, filhos e casamento. Com isso, d. Quixote se queixa de que sua mulher esconde seus livros de cavalaria e o impede de sair à cata de moinhos de vento. E Madame Bovary se queixa de que seu marido esconde seus livros de amor e a impede de sair pelos bailes, à cata de paixões sublimes e elegantes.
Pena que raramente eles consigam ter os mesmos sonhos. Um problema é que os sonhos dos homens podem ser de conquista, mas dificilmente de amor, pois eles derivam diretamente das esperanças que as mães depositam em seus filhos, e, claro, uma mãe pode esperar que seu rebento varão seja um dom-juan, mas raramente esperará ser substituída por outra mulher no coração do filho. Não pense que esse fogo cruzado de acusações seja causa recorrente de divórcio. Ao contrário, ele faz a força do casamento, pois, atrás da acusação (”É por sua causa que deixei de realizar meus sonhos”), ouve-se: “Ainda bem que você está aqui, do meu lado, fornecendo-me assim uma desculpa -sem você, eu teria de encarar a verdade, e a verdade é que eu mesmo não paro de trair meus próprios sonhos”. Ou seja, em geral, a gente casa com a pessoa “certa”: a que podemos culpar por nossos fracassos. E essa, repito, não é uma razão para separar-se. Ao contrário, seria uma boa razão para ficar juntos.
Quando a coisa aperta, não é porque sonhos e devaneios teriam sido frustrados “por causa do outro”, mas pelas “cobranças”, que, elas sim, podem se revelar insuportáveis. Um exemplo masculino. Uma mulher me permite acreditar que é por causa dela que eu não consigo ser o que quero: graças a Deus, não posso mais tentar minha sorte no garimpo agora que tenho esposa, filhos e tal. Até aqui, tudo bem. Como compensação pelos sonhos dos quais eu desisti, passo as tardes de domingo afogando num sofá e soltando foguetes quando meu time marca um gol, mas eis que, no meio do jogo, minha mulher me pede para brincar com as crianças ou para ir até à padaria e comprar o necessário para o café – logo a mim, que deveria estar explorando as fontes do Nilo ou negociando a paz entre os senhores da guerra da Somália. Essa cobrança, aparentemente chata, poderia salvar-me da morosa constatação do fracasso de meus sonhos e das ninharias com as quais me consolo. Talvez, aliás, ela me ajudasse a encontrar prazer e satisfação na vida concreta, nos afetos cotidianos. Mas não é o que acontece: o que ouço é mais uma voz que confirma minha insuficiência. À cobrança dos sonhos dos quais desisti acrescenta-se a cobrança de quem foi (ou é) “causa” de minha desistência e razão de meu “sacrifício”: “Olhe só, mesmo assim, ela não está satisfeita comigo.” Em suma, não presto, nunca, para mulher alguma -nem para a mãe que queria que eu fosse herói nem para a esposa para quem renunciei a ser herói. E a corda arrebenta.
O ideal seria aceitar que nosso par nos acuse de seus fracassos e, além disso, não lhe pedir nada. Difícil.
Uma das boas razões para se casar é a seguinte: uma vez casados, podemos culpar o casal por boa parte de nossas covardias e impotências.
O marido, por exemplo, pode responsabilizar mulher, filhos e casamento por ele ter desistido de ser o aventureiro que ainda dorme, inquieto, em seu peito. A decepção consigo mesmo é menos amarga quando é transformada em acusação: “Você está me impedindo de alcançar o que eu não tenho a coragem de querer”. Essas recriminações, que disfarçam nossos fracassos, não são unicamente masculinas. Certo, os homens são quase sempre assombrados por impossíveis devaneios de grandeza – como se algum destino extraordinário e inalcançável já tivesse sido sonhado para eles (e foi mesmo, geralmente pelas suas mães). Diante de tamanha expectativa, é cômodo alegar que o casal foi o impedimento. As mulheres, inversamente, seriam mais pé-no-chão, capazes de achar graça nas serventias do cotidiano. Por isso mesmo, aliás, elas encarnariam facilmente, para os homens, os limites que a realidade impõe aos sonhos que eles não têm a ousadia de realizar. Agora, as mulheres também sonham. Há a dona de casa que acusa o marido, os filhos e o casamento por ela ter desistido de outra vida (eventualmente, profissional), que teria sido fonte de maiores alegrias. E há, sobre tudo, para muitas mulheres, um sonho romântico de amor avassalador e irresistível, do qual, justamente, elas desistem por causa de marido, filhos e casamento. Com isso, d. Quixote se queixa de que sua mulher esconde seus livros de cavalaria e o impede de sair à cata de moinhos de vento. E Madame Bovary se queixa de que seu marido esconde seus livros de amor e a impede de sair pelos bailes, à cata de paixões sublimes e elegantes.
Pena que raramente eles consigam ter os mesmos sonhos. Um problema é que os sonhos dos homens podem ser de conquista, mas dificilmente de amor, pois eles derivam diretamente das esperanças que as mães depositam em seus filhos, e, claro, uma mãe pode esperar que seu rebento varão seja um dom-juan, mas raramente esperará ser substituída por outra mulher no coração do filho. Não pense que esse fogo cruzado de acusações seja causa recorrente de divórcio. Ao contrário, ele faz a força do casamento, pois, atrás da acusação (”É por sua causa que deixei de realizar meus sonhos”), ouve-se: “Ainda bem que você está aqui, do meu lado, fornecendo-me assim uma desculpa -sem você, eu teria de encarar a verdade, e a verdade é que eu mesmo não paro de trair meus próprios sonhos”. Ou seja, em geral, a gente casa com a pessoa “certa”: a que podemos culpar por nossos fracassos. E essa, repito, não é uma razão para separar-se. Ao contrário, seria uma boa razão para ficar juntos.
Quando a coisa aperta, não é porque sonhos e devaneios teriam sido frustrados “por causa do outro”, mas pelas “cobranças”, que, elas sim, podem se revelar insuportáveis. Um exemplo masculino. Uma mulher me permite acreditar que é por causa dela que eu não consigo ser o que quero: graças a Deus, não posso mais tentar minha sorte no garimpo agora que tenho esposa, filhos e tal. Até aqui, tudo bem. Como compensação pelos sonhos dos quais eu desisti, passo as tardes de domingo afogando num sofá e soltando foguetes quando meu time marca um gol, mas eis que, no meio do jogo, minha mulher me pede para brincar com as crianças ou para ir até à padaria e comprar o necessário para o café – logo a mim, que deveria estar explorando as fontes do Nilo ou negociando a paz entre os senhores da guerra da Somália. Essa cobrança, aparentemente chata, poderia salvar-me da morosa constatação do fracasso de meus sonhos e das ninharias com as quais me consolo. Talvez, aliás, ela me ajudasse a encontrar prazer e satisfação na vida concreta, nos afetos cotidianos. Mas não é o que acontece: o que ouço é mais uma voz que confirma minha insuficiência. À cobrança dos sonhos dos quais desisti acrescenta-se a cobrança de quem foi (ou é) “causa” de minha desistência e razão de meu “sacrifício”: “Olhe só, mesmo assim, ela não está satisfeita comigo.” Em suma, não presto, nunca, para mulher alguma -nem para a mãe que queria que eu fosse herói nem para a esposa para quem renunciei a ser herói. E a corda arrebenta.
O ideal seria aceitar que nosso par nos acuse de seus fracassos e, além disso, não lhe pedir nada. Difícil.
domingo, 18 de outubro de 2009
Borges
AUSENCIA
Habré de levantar la vasta vida
que aún ahora es tu espejo:
cada mañana habré de reconstruirla.
Desde que te alejaste,
cuántos lugares se han tornado vanos
y sin sentido, iguales
a luces en el día.
Tardes que fueron nicho de tu imagen,
músicas en que siempre me aguardabas,
palabras de aquel tiempo,
yo tendré que quebrarlas con mis manos.
¿En qué hondonada esconderé mi alma
para que no vea tu ausencia
que como un sol terrible, sin ocaso,
brilla definitiva y despiadada?
Tu ausencia me rodea
como la cuerda a la garganta,
el mar al que se hunde.
Habré de levantar la vasta vida
que aún ahora es tu espejo:
cada mañana habré de reconstruirla.
Desde que te alejaste,
cuántos lugares se han tornado vanos
y sin sentido, iguales
a luces en el día.
Tardes que fueron nicho de tu imagen,
músicas en que siempre me aguardabas,
palabras de aquel tiempo,
yo tendré que quebrarlas con mis manos.
¿En qué hondonada esconderé mi alma
para que no vea tu ausencia
que como un sol terrible, sin ocaso,
brilla definitiva y despiadada?
Tu ausencia me rodea
como la cuerda a la garganta,
el mar al que se hunde.
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Lou Reed - Berlin
You're right and I'm wrong
oh babe, I'm gonna miss you now that you're gone
One sweet day
You're right, oh, and I'm wrong
you know I'm gonna miss you now that you're gone
One sweet day
One sweet day
oh babe, I'm gonna miss you now that you're gone
One sweet day
You're right, oh, and I'm wrong
you know I'm gonna miss you now that you're gone
One sweet day
One sweet day
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
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